3. Centro de Reabilitação e Valorização da Criança – CERVAC

 

 

ELOS DA INCLUSÃO

Mauricéa Santiago da Silva

 

Apresentação

“Elos da Inclusão” é o nome usado há mais de quinze anos para dar sentido e tornar mais lúdicas e utópicas as ações sociopedagógicas que realizo com professores e alunos nas escolas atendidas pelo Programa de Educação Inclusiva do CERVAC. Os escritos aqui reunidos se interligam para dar forma e vida ao texto; são fragmentos de momentos distintos de um relato pessoal, alicerçados em trabalhos coletivos que trazem a marca de vários profissionais e o cerne de uma instituição que aqui se unem para perpetuação e socialização da práxis de uma coordenadora pedagógica em sua ação educativa na organização.

O CERVAC- Centro de Reabilitação e Valorização da Criança surge em 27 de junho de 1988, diante da constatação da falta de políticas públicas eficientes, seja no âmbito municipal, estadual ou federal, e serviços de competência voltados para o atendimento da pessoa com deficiência. Nesse contexto, situa-se como uma iniciativa eminentemente comunitária que se inicia a partir de uma pesquisa idealizada por três jovens residentes no Morro da Conceição: Albelena Lopes de Almeida, Marcos Ferreira de Lima e Mauricéa Santiago da Silva. A pesquisa indicou um grande número de pessoas com deficiências, muitas vezes isoladas em suas próprias famílias e em situação de vulnerabilidade, o que nos impulsionou a mobilizar a comunidade para lutar pela causa da pessoa com deficiência.

Ao longo de sua história, o CERVAC conseguiu estruturar-se fisicamente e sua proposta tem obtido resultados bastante significativos no que diz respeito ao desenvolvimento de potencialidades psicomotoras do público assistido. Atualmente o CERVAC tem cerca de trezentos e cinquenta crianças, adolescentes e jovens inscritos, vindos de diversos bairros da Região Metropolitana do Recife e de alguns municípios do interior do Estado de Pernambuco, com atendimentos diários, realizados em turmas pela manhã e à tarde. Para esse público são realizados cerca de 10.000 procedimentos mensais, nas áreas de atendimento clínico e educacional.

Diagnóstico do CERVAC

O princípio básico que norteia a organização é a participação democrática de todos os segmentos envolvidos. O eixo de sua política institucional é a dimensão comunitária, em uma perspectiva de atuação crítica às formas de opressão e discriminação social, com desenvolvimento de ações solidárias ao próximo e sensibilizador quanto aos direitos sociais. No aspecto filosófico, seu eixo organizacional está alicerçado na gestão democrática; no entanto, na prática esse exercício de participação e cidadania, de tomada de decisões e execução de atividades, muitas vezes se confunde com as relações de poder e a definição de papéis, o que faz com que a intenção de gestão partilhada por vezes acabe sendo atropelada – ora pelo volume de decisões que precisam ser tomadas para agilizar as resoluções das questões do cotidiano, ora pela postura concentradora de alguns profissionais e/ou pela autonomia relativa atribuídas aos demais. No entanto, a forma de gerenciamento partilhada de fato é refletida e vivenciada na instituição.

Nesse contexto situa-se o CERVAC, uma iniciativa eminentemente comunitária, com uma história que vem se construindo a partir da atitude decisiva de várias pessoas e do engajamento delas na luta por um mundo onde as diferenças sejam respeitadas, acolhidas e a participação seja um exercício de cidadania em prol da qualidade e da valorização da vida. Sua missão é “valorizar as pessoas com deficiência, possibilitando seu desenvolvimento físico e mental, atuando nos programas de Assistência Social, Atenção à Saúde, Educação Inclusiva, Artístico Cultural, favorecendo sua inclusão social através da participação ativa em políticas que lhes garantam melhor qualidade de vida”.

Caracterização dos Educadores

A equipe de profissionais do CERVAC é bastante diversificada, a começar pela concepção de educador que a instituição tem ou se esforça para ter em sua prática. Todos são educadores em seus afazeres no CERVAC e a estrutura de funcionamento está organizada por programas, com coordenações que definem suas necessidades de estudos e formação e que levam essas necessidades para a reunião geral de coordenação. Os coordenadores elaboram seus planos de estudo junto com o grupo de trabalho, de acordo com a necessidade que o coordenador ou demais profissionais do programa identifiquem. Os desejos individuais de participação em seminários, congressos e cursos de longo prazo são respeitados pela instituição.

Programas da organização

  • Programa de Atenção à Saúde: equipe composta por psicólogo, terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, fonoaudiólogo, profissionais de Ensino Médio e professores que desenvolvem suas funções de acordo com as profissões; uma estudante de fisioterapia e uma professora do magistério estudando pedagogia que realizam atividades de estimulações.
  • Programa de Educação Inclusiva: composto por uma pedagoga e uma psicopedagoga contratadas pelo CERVAC, além de professores cedidos por meio de um convênio com a Prefeitura do Recife; estagiários de artes plásticas, administrativo, apoio pedagógico em sala de aula, serviços gerais, porteiros.
  • Programa Artístico Cultural: funciona com um coordenador de programa, uma estudante de educação física e dois músicos.
  • Programa de Atenção à Família: tem uma assistente social e uma estudante de Serviço Social.
  • Programa de Sustentabilidade Financeira: tem um coordenador administrativo-financeiro e uma auxiliar administrativa. A área de Manutenção tem profissionais que assessoram a equipe, uma cozinheira, um motorista, duas pessoa de serviços gerais e de captação de recursos.
  • Programa de Comunicação: tem por responsável a coordenadora executiva do CERVAC, que além de atender às demandas de seu programa e desenvolver muitas funções, responde legalmente e na prática pelo CERVAC.

 Faz parte da equipe de profissionais da instituição, ainda, o Coordenador Geral, que desempenha a função de elaboração de projetos e acompanhamento da instituição, desempenhando várias funções administrativas e financeiras.

Reflexão de uma Coordenadora Pedagógica

A busca pela tomada de consciência e clareza no desempenho da função já faz parte do cotidiano do CERVAC. Para tanto, no planejamento estratégico trienal realizado em 2011, todos os profissionais elaboraram uma ficha que solicitava um levantamento do papel e das atribuições de cada um no conjunto da instituição, que posteriormente foi socializada e refletida coletivamente. Para a coleta de informações, realizei pesquisas em vários documentos da organização, planejamentos, relatórios de planos estratégicos anteriores e efetuei a sistematização de todas as atividades desenvolvidas. No entanto, para a elaboração de tarefas nas Oficinas de Sistematização CASA7, fiz uma releitura do material e cheguei à conclusão de que meu papel atual é muito mais o de cumprir tarefas específicas dentro da instituição, sem uma proposta pedagógica mais consistente, entendida e aceita por todos. Percebi que o que mais me encanta no geral das atividades – e aí, talvez, esteja o foco principal do meu papel – é ter um olhar mais aguçado para a garantia do universo lúdico na estrutura do CERVAC. Esse resultado apontou com mais evidência algumas questões para delinear com precisão o meu papel na instituição e minhas atribuições, expostas a seguir, bem como a possibilidade de realização de atividades nos eixos administrativo e pedagógico.

Sobre o meu papel

  • Possibilitar a garantia do direito e respeito ao exercício das vivências do universo lúdico à pessoa com deficiência na estrutura do CERVAC.
  • Responder pedagogicamente pelo Programa de Educação Inclusiva na instituição.
  • Acompanhar o desenvolvimento pedagógico dos alunos e dar assessoria à prática dos professores.
  • Identificar as demandas e necessidades em educação das crianças e adolescentes dos outros Programas no CERVAC.

Sobre as minhas atribuições

São tantas, mas algumas são marcantes e vale a pena socializá-las, tais como: elaborar, acompanhar e possibilitar o alcance das metas e a realização das atividades do Programa de Educação Inclusiva relacionadas ao POA (Plano Operacional Anual). Ainda não temos um plano elaborado para a formação dos profissionais que atuam no CERVAC; esses momentos acontecem de forma mais espontânea nos demais programas da instituição, assim como nas reuniões mensais, nos planejamentos semestrais, no apoio financeiro à participação em cursos de longo prazo, em seminários e encontros de formações, na liberação e diminuição de carga horária e até em projetos que já financiaram formação superior. No entanto, são definições ricas e comprometidas, que mesmo não estando contidas em um projeto ou programa voltado para a formação interna de todos, mesmo que pontuais, já fazem parte da cultura da instituição.

Penso em que papel gostaria de desempenhar. Essa é uma questão inquietante que merece muita calma e ponderação para ser respondida. Talvez seja instituição que deva expor que tipo de coordenador pedagógico deseja; no entanto, verifico que são muitas as atividades administrativas e pedagógicas que preciso dar conta diariamente e que esse volume prejudica o alcance de resultados mais consistentes; às vezes sufoca o cotidiano, sinto falta de um dia específico só para o registro do que foi realizado, para a elaboração de projetos, fichas, relatórios, organização da parte documental etc. No exercício da função, às vezes o papel do coordenador pedagógico se confunde com o de coordenador do Programa de Educação Inclusiva, que responde pelo programa perante a coordenação do CERVAC. São papéis diferentes, com atribuições distintas, que tento cruzar da forma mais harmônica possível. Porém, na maioria das vezes o administrativo se sobrepõe ao pedagógico e, nesse ativismo institucional, se dilui uma coordenadora pedagógica e seus conflitos profissionais…

Ao colocar-me diante desse desafio de escrever sobre a minha função, ficou clara a consciência do meu papel na instituição e o empenho empregado na busca da melhor forma para excelê-la com dignidade, sabedoria e competência, expressa na procura por qualificação, para estar atualizada e poder atender com mais eficiência e amor à minha função. Percebo que a dinâmica do CERVAC é muito flexível e, ao mesmo tempo, muito diversificada, o que exige dinamismo, criatividade e adequação. Para atender a essa demanda, procuro visualizar o melhor encaminhamento a dar para a realização das ações pedagógicas. Em serviço, adoto uma postura de muita transparência, ética, responsabilidade e amizade com todos, proponho sempre a parceria com a família e tenho particularmente uma relação intensa com a comunidade. Para finalizar essa reflexão, penso que, se fosse possível, gostaria de ter uma atuação mais focada no pedagógico, sem envolvimento com o administrativo da instituição. No entanto, como cita a música de Almir Sater, “cada sujeito carrega em sua história o dom de ser capaz e ser feliz…”.

Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si
Carrega o dom de ser capaz
E ser feliz
(Almir Sater)
 

Formação em equipe diversificada

Como trabalhar a formação interna em uma instituição com uma gama tão diversa de profissionais, com interesses institucionais e pessoais diferentes?

Para melhor organização dessa demanda de profissionais, no último planejamento estratégico da instituição, em 2011, respondemos a um formulário que informava o papel e as atribuições dos profissionais. A partir daí, socializamos as respostas e definimos melhor as funções. No entanto, mesmo assim, a questão da formação ainda ficou sem definição; ficou, como antes, à deriva, de acordo com as necessidades pessoais e/ou pontuais. No entanto, essa questão da formação é um tema sempre abordado nas reuniões, a partir do estímulo para que todos estudem.

Essa questão ficou bem definida durante a elaboração do regimento interno, nas discussões sobre o apoio financeiro para participação em cursos e congressos, na necessidade da instituição ter profissionais da comunidade formados para assumirem os cargos, na participação da equipe em estudo de casos e aprofundamento do método. Os cursos, seminários e outras atividades externas de formação são escolhidos de acordo com o interesse individual do profissional e raramente por indicação da instituição, a não ser quando a coordenadora envia e-mail para todos os profissionais divulgando cursos, congressos e oficinas, estimulando a qualificação profissional de todos, ou quando há um curso específico que a coordenação acha importante que alguém participe.

É com muito surpresa que identifico, em nossa experiência de 24 anos como instituição, que nunca foi realizado um diagnóstico sobre as principais necessidades formativas dos educadores atuais no geral do CERVAC. O Programa de Atenção à Saúde tem levado para as reuniões gerais e de coordenação a necessidade de um aprofundamento sobre métodos de estimulação neurológica com toda equipe da organização. Para isso, em setembro e outubro de 2012 realizou uma atividade de formação para a família, que conta com a presença de educadores. Verificamos, com muita alegria, que estamos vivendo um novo tempo, rumo a um trabalho intenso de estímulos e elaboração de cursos internos na instituição.

Os marcos de formação no CERVAC (o processo formativo na organização)

Reporta-me no tempo
Penso no vento
Cheiro, rostos sorridentes
Tudo confuso, confisco na mente
Procuro os registros, são muitas as sementes
É luz, história, vivas, vigas, sentidas, urtigas,
Favos e afagos em gente
Reluz palavras
Passado em presente

 

Desde o seu surgimento, o CERVAC tem realizado ações formativas, mesmo que de forma espontânea. Sua existência foi marcada por grandes momentos de busca de formação qualificada para se fazer existir. Preocupo-me em como resgatar vinte e quatro anos de trabalho sem ser infiel aos marcos do tempo; são tantas histórias… Acho importante registrar que os momentos descritos são contribuições pessoais que fazem parte de um acúmulo existencial na instituição, informações pessoais de agendas antigas e relatórios. O desafio foi identificar os marcos, que na verdade são escolhas e que, em vão, procuramos que fossem coletivas. Mas o tempo não nos permitiu o alento, exceto pela presença doce e colaboradora da nossa coordenadora executiva Michelle Cristina Santos, que nos forneceu carinhosamente os registros arquivados da instituição.

Ano Fato Impacto na vida da instituição
11 de maiode 1988 Primeiro encontro para estudar o problema da pessoa com deficiência, antes mesmo do CERVAC existir enquanto instituição, juntamente com a elaboração do primeiro projeto e pesquisa para verificar a existência de pessoas com deficiência na comunidade do Morro da Conceição. Esses fatos foram decisivos para o surgimento desse trabalho que tem 24 anos de ações voltadas para a reabilitação, a valorização e a inclusão da pessoa com deficiência.
26 de junho de 1988 Na busca por formação e apoio técnico, cheios de sonhos e desejos de dias felizes – como dizemos, “na busca por uma sociedade igualitária” -, partimos para uma visita à Universidade Federal de Pernambuco, visando solicitar ajuda para iniciar o CERVAC.Com bastante frustração nos encontramos com a academia, seus saberes, leis e estruturas rígidas, mas não desistimos com os vários “nãos” recebidos. Perseguimos nossa caminhada em busca do direito de ser cidadão e da realização do sonho…  Chegando à comunidade, tristes, mas com muita disposição, procuramos o Conselho de Moradores local, as lideranças, nossos familiares, o padre da Igreja (na época, Reginaldo Veloso) e juntos fizemos uma assembleia que respaldou nossos sonhos e contribui para torná-los realidade. E assim surge o CERVAC.
15 de julho de 1988 Três jovens e um sonho, na busca por formação, viajam ao Rio de Janeiro para fazer um curso de Estimulação Neurológica, realizado pelo Instituto Nossa Senhora da Glória, com apoio do Instituto do Desenvolvimento do Potencial Humano da Filadélfia. Esse curso foi um marco, pois nos credenciou para atuarmos com a causa da pessoa com deficiência e nos permitiu abrir o CERVAC.
28 de agosto de 1988 Nosso primeiro curso para familiares e educadores de pessoas com deficiência. Esse curso acontece até hoje: “a família é o principal terapeuta do seu filho”. Esse é o lema que aprendemos no curso, muitas vezes repetido pelo Dr. Carlos Veras, diretor do Instituto Nossa Senhora da Glória do Rio de Janeiro.Esse é um dos aspectos que dá base ao nosso trabalho: o papel da família na reabilitação e inclusão dos filhos.
30 de junho a 02 de julho de 1989 Realizamos uma avaliação da equipe em Gravatá. Foi uma semana decisiva para o aprofundamento dos métodos, para a definição das estratégias de trabalho e a elaboração das ações com o público a ser atendido.Reafirmamos o nosso compromisso com os excluídos da sociedade, refletimos sobre a nossa filosofia institucional comunitária e voltamos para o Morro da Conceição, no Recife, alimentados de sonhos e com muitos planejamentos para colocar em prática.Hoje penso que o encontro foi definitivo para a garantia da continuidade do nosso trabalho e para a consolidação da maneira própria do nosso fazer.Até os dias atuais continuamos buscando formas de ampliar e melhorar o nosso fazer – como diz Paulo Freire: “continuo buscando, reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago e me indago. Pesquiso para conhecer o que ainda não conheço e comunicar a novidade” (FREIRE, 2004, p. 29 apud RECANTO DAS LETRAS, SL/SD).
Maio de 1993 Estimulados pelo desejo contínuo de conhecimento, a equipe de prevenção do CERVAC consegue elaborar a “Cartilha de Prevenção” através da FUSAM, da Secretaria de Saúde do Estado de Pernambuco, com tiragem de dez mil exemplares. Até hoje distribuímos essas cartilhas nas escolas onde fazemos palestras, universidades e para estagiários do curso de Pedagogia. Esse foi um momento de demarcação da política de formação externa da instituição. A cartilha foi fruto de um largo trabalho de pesquisa que possibilitou um estudo das causas e dos modos para evitar o nascimento de pessoas com deficiência, bem como reabilitá-los.Em 2013 vamos reeditá-la nas comemorações dos 25 anos do CERVAC como: “Em busca de um mundo melhor”.
10 de maio de 1996 Com a chegada da equipe técnica, ou seja, dos profissionais da área de psicologia, fonoaudiologia, fisioterapia, deu-se início aos Estudos de Patologias dos casos de crianças, adolescentes e jovens atendidos pelo CERVAC. Houve conflito com relação à forma de se conceber os saberes e como colocá-los em prática – choque entre o conhecimento acadêmico, trazido pelos técnicos, e os saberes do povo, acumulados nas experiências da vida.Esse foi um divisor de águas na instituição que nos impulsiona a buscar maior profissionalização. Mesmo com alguns de nós formados, ainda hoje existe a divisão entre os profissionais da comunidade e os técnicos.
Fevereiro de 1999 Primeiro Planejamento Estratégico.  A partir dele elaboramos a nossa missão, definimos as metas e mudamos a nossa forma de organização do trabalho na instituição.
1999 Investimento na formação em curso de fonoaudiologia e musicoterapia para profissionais escolhidos na instituição. Surge o trabalho por equipes: Conscientização, Reabilitação, Captação de Recursos e Prevenção.
2000 Primeiro simpósio promovido pelo CERVAC na Universidade Católica – UNICAP, com participação de profissionais do CERVAC, pais e outras instituições parceiras. Momento único de formação e partilha de conhecimentos que nos mostrou o nosso potencial na produção de conhecimento.
2000 a 2012 Liberação de recursos para participação em cursos e seminários.  Instituições parceiras apoiando a formação.
2011 Revisão do Regimento Interno que aborda a questão do nível de escolaridade para a melhoria financeira dos profissionais.  É a lei maior, elaborada por todos, norte nas decisões, que por vezes é esquecido.
Setembro e Outubro de 2012 Curso para mães, realizado até os dias atuais. Temos provas concretas da importância da família na reabilitação e inclusão dos filhos e no quanto o afeto e a perseverança familiar contribui com o trabalho dos profissionais.
De 1986 a 2013 Reuniões mensais da equipe, às vezes por programas, equipes de trabalho, temas ou temáticas surgidas da necessidade da instituição. Essas reuniões, no início do CERVAC, eram semanais, depois passaram a ser quinzenais e hoje são mensais.Momentos de formação em cidadania, socialização de saberes e troca de experiências, informações e agendas.
2013 Busca da formação permanente dos profissionais do CERVAC e a realização da reabilitação com base na comunidade. Voltamos ao nosso fazer inicial, identificamos as atividades que existem até hoje com esse foco e vamos nos apropriar mais do formato nos tempos atuais. Como definiu o nosso Coordenador Geral, é um momento que visa “contribuir para que as famílias e as comunidades tenham acesso às informações necessárias, que os levem a estabelecer uma vivência compartilhada de responsabilidade social”.

 

Vivências em sala de aula na perspectiva da inclusão escolar – Um Projeto de Formação em Educação Inclusiva para os profissionais do CERVAC

Projeto de curso que se propõe a sensibilizar os profissionais e a coordenação do CERVAC sobre a importância de garantir a existência do trabalho de educação na organização. É preciso entendê-lo como promotor do processo de inclusão da pessoa com deficiência, contribuindo para as reflexões dos profissionais de educação, de forma a levá-los a conhecer mais profundamente as estratégias que facilitam o processo de aprendizagem e os hábitos de estudo dos alunos, a prevenção de dificuldades e a promoção de aprendizagem, bem como para buscar a melhoria do processo de ensino e aprendizagem.

O curso terá como viés a sensibilização quanto à importância da inclusão escolar como forma de garantia do exercício do direito e participação cidadã, de modo a favorecer a inclusão dos alunos com necessidades especiais no cotidiano das escolas.

Aos profissionais do CERVAC e professores convidados, vamos apresentar experiências no campo da educação inclusiva com alunos autistas e com paralisia cerebral, sensibilizando para um outro olhar possível com relação ao potencial de aprendizagem desses alunos, bem como o conhecimento de estratégias para uma atuação mais eficaz em sala de aula. Neste sentido, queremos contribuir com sugestões metodológicas que viabilizem a construção do conhecimento dos profissionais em relação ao desempenho pedagógico dos com alunos com deficiência.

Metas

Assegurar à coordenação do CERVAC, bem como aos demais profissionais dos programas, ações que estimulem a reflexão sobre a importância do trabalho de educação desenvolvido na instituição, para a inclusão escolar e a garantia da cidadania da pessoa com deficiência.

Objetivos                               

  • Sensibilizar os profissionais do CERVAC sobre a importância da inclusão escolar como forma de garantia do exercício do direito e participação cidadã da pessoa com deficiência.
  • Proporcionar reflexão em relação à importância das práticas pedagógicas dos professores envolvidos no processo de inclusão escolar no CERVAC.
  • Socializar experiências da vida cotidiana na sala de aula no CERVAC e suas várias faces em busca da inclusão escolar.

Expectativas de aprendizagem

Que os profissionais do CERVAC compreendam como funciona o trabalho de Educação Inclusiva nos aspectos pedagógicos e legais, nos âmbitos nacional, estadual, municipal e na instituição, bem como a sua importância para inclusão da pessoa com deficiência na escola.

Conteúdos da Formação

  • Trajetória e evolução da educação voltada para o atendimento às pessoas com necessidades educacionais especiais.
  • Práticas exitosas de alfabetização no Atendimento Educacional Especializado (AEE).
  • Aspectos legais da Inclusão Escolar.
  • Práticas exitosas de alfabetização de alunos com Deficiência Múltipla.
  • Importância da Educação Inclusiva para a garantia dos direitos dos alunos com necessidades especiais.
  • Práticas exitosas de alfabetização de alunos com Transtornos de Desenvolvimento Global (espectro autista).
  • Estratégias, metodologias e instrumentos de avaliação na promoção e inclusão dos alunos com necessidades educativas especiais.
  • Tecnologias Assistivas: materiais e recursos adaptados para o aluno com necessidades educativas especiais.
  • O papel do professor e do psicopedagogo em uma perspectiva de inclusão escolar.
  • Práticas exitosas de alfabetização de alunos com Deficiência Intelectual na Turma do EJA – Educação de Jovens e Adultos.
  • Práticas Exitosas e considerações sobre o esporte e a dança sobre rodas.
  • A dança: benefício para a alma e para o corpo.
  • Prática exitosa: Grupo Arco Iris do Sonho.
  • O papel da equipe multidisciplinar no âmbito do CERVAC e sua importância em relação à aprendizagem dos alunos com necessidades educativas especiais.
  • A área de saúde em parceria com a educação no atendimento aos alunos com necessidades especiais.
  • Reflexão sobre a importância do trabalho de educação do CERVAC, possibilidades e desafios para os 25 anos: “CERVAC em busca de um mundo melhor”.

Expectativas de aprendizagem do trabalho com as crianças/jovens

A instituição trabalha com crianças, adolescentes e jovens com vários tipos de deficiências, por isso almejamos:

  • O desenvolvimento do potencial cognitivo dos educandos, respeitando suas especificidades.
  • A participação em vivências de experiências lúdicas e pedagógicas que estimulem o crescimento dos alunos nos aspectos cognitivo, afetivo, social, motor, facilitando a sua inclusão na escola.
  • Condições pedagógicas para desenvolvimento da capacidade de ler, escrever, compreender, raciocinar, interagir, participar de modo consciente, a partir da exploração contínua dos conhecimentos acumulados e de vivências concretas em sala de aula.
  • Que se identifiquem como cidadãos ativos e participativos de um processo e respeitados no seu modo de ser.
  • Que sejam incluídos na escola e consigam terminar a sua escolarização.

Etapas de desenvolvimento do projeto de formação

Será realizado a partir de dez oficinas denominadas “Elos da Inclusão – Vivências em Sala de Aula na Perspectiva da Inclusão Escolar”, com duração de duas horas cada, totalizando a carga horária de 20 horas.

Procedimentos

As atividades vão consistir em exposições dialogadas de conteúdos com auxílio de data show e na socialização de experiências exitosas de alfabetização em turmas de alunos com deficiência.

Pauta da Formação (data a ser definida em fevereiro de 2013, na reunião geral da organização)

 

Oficinas e Conteúdos Facilitadores
1º Dia

  1. Abertura – Dinâmica de descontração.
  2. Trajetória e evolução da educação voltada para o atendimento a pessoas com necessidades educacionais especiais.
  3. Prática exitosa de alfabetização no Atendimento Educacional Especializado (AEE).
Profa. Mauricéa Santiago da Silva

Jaqueline Oliveira Arão

Prof. Alberto Melquiades da Silva Filho

Convidado

2º Dia

  1. Aspectos legais da Inclusão Escolar.
  2. Práticas exitosas de alfabetização de alunos com Deficiência Múltipla.
Profa. Maria de Fátima Monteiro dos Santos

Gerencia de Educação Especial da PCR

3º Dia

  1. Importância da Educação Inclusiva para a garantia dos direitos dos alunos com necessidades especiais.
  2. Prática exitosa de alfabetização de aluno com Transtornos de Desenvolvimento Global (espectro autista).
Convidado

Profa. Maria Janice Magalhães Correia de Melo

4º Dia

  1. Estratégias, metodologias e instrumentos de avaliação na promoção e inclusão dos alunos com necessidades educativas especiais.
  2. Tecnologias Assistiva: materiais e recursos adaptados para o aluno com necessidades educativas especiais.
Profa. Maria de Fátima Monteiro dos Santos

Profa. Neuma Silva Siqueira

Convidados

 

5º Dia

  1. Os diferentes âmbitos institucionais que interferem no processo de aprendizagem e escolarização do aluno com deficiência.
  2. Práticas exitosas de alfabetização de alunos com Deficiência Intelectual.
Profa. Mauricéa  Santiago da Silva

Convidado

 6º Dia

  1. O papel do professor e do psicopedagogo em uma perspectiva de Inclusão Escolar.
  2. Práticas exitosas de alfabetização de alunos com Deficiência Intelectual na Turma do EJA – Educação de Jovens e Adultos.
Jaqueline Oliveira Arão

Profa. Neuma Silva Siqueira

Convidados

 

7º Dia

  1. Artes Plásticas e Música: Estratégias metodológicas para viver com arte uma experiência inclusiva.
  2. Prática exitosa: Banda CERVAC: Uma força especial.
Profa. Mauricéa Santiago da Silva

Convidados

Músico Reginaldo Moreira da Silva

Músico Manoel Santana

8º Dia

  1. Práticas exitosas e considerações sobre o esporte e a dança sobre rodas.
  2. A dança: benefício para a alma e para o corpo.
  3. Prática exitosa: Grupo Arco Iris do Sonho.
Laís Marina Paz de Oliveira

Convidada: Suzete Alves

Coordenadora do Programa  Artístico Cultural do CERVAC

9º Dia

  1. O papel da equipe multidisciplinar no âmbito do CERVAC e sua importância em relação à aprendizagem dos alunos com necessidades educativas especiais.
  2. A área de saúde em parceria com a educação no atendimento aos alunos com necessidades especiais.
Profa. Maria Janice Magalhães Correia de Melo

Convidado

 10º Dia

  1. Reflexão sobre a importância do trabalho de educação do CERVAC. Possibilidades e desafios para os 25 anos “CERVAC em busca de um mundo melhor”.
Profa. Mauricéa Santiago da Silva

Mesa redonda – Convidados

 

Avaliação

A avaliação será realizada durante todo o processo, de forma qualitativa no que se refere às participações durante a exposição e às atividades práticas, e também por meio de fichas para registro de opiniões.

Materiais/recursos necessários

Data show; som; CD; DVD; papel ofício; giz de cera; cordão; tesoura; revistas usadas.

Referências bibliográficas

BRASIL. Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional – LDB. 5ª ed. Brasília: Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados. Centro de Documentação e Informação. Coordenação de Biblioteca, 2010. 
BRASIL. Livro do Cidadão. 3ª ed. revista e atualizada. Brasília, DF: Advocacia Geral da União, Ministério da Justiça. 2006.
Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID 10. Décima Revisão; Vol. I. Centro Colaborador da OMS para a Classificação de Doenças em Português (Centro Brasileiro de Classificação de Doenças). Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo / Organização Mundial de Saúde / Organização Pan-Americana de Saúde. S/L, 2008.
Estatuto da Criança e do Adolescente. Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Assessoria de Comunicação Social. Brasília, DF: MEC / ACS, 2005.
FLUENTES, D. et al. Neuropsicologia: teoria e prática. Porto Alegre, RS: ARTMED, 2008.
MANTOAN, M. T. E; PRIETO R. G. Inclusão escolar: pontos e contra pontos, 2ª ed. São Paulo, SP: Summus, 2006.
REGO, T. C. Vygotsky: uma perspectiva histórico-cultural da educação. Sl/ 2010.
SÃO PAULO (SP). Secretaria Municipal de Educação. Diretoria de Orientação Técnica. Referencial sobre Avaliação da Aprendizagem na Área da Deficiência Intelectual. São Paulo, SP: Secretaria Municipal de Educação / DOT, 2008.
SASSAKI, R. K. “As escolasinclusivas na opiniãomundial”, 2003. Rede de Informações sobre Deficiência. Disponível em: http://www.entreamigos.com.br/escolasinclusivas.
TESSARO, N. S. Inclusão escolar: concepções de professores e alunos da educação regular e especial, 1ª ed. São Paulo, SP: Casa do Psicólogo, 2005. 
UNESP. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Documento elaborado pelo Grupo de Trabalho nomeado pela Portaria Ministerial nº 555, de 5 de junho de 2007, prorrogada pela Portaria nº 948, de 09 de outubro de 2007. Postado através do Módulo 2, agenda 1 do Curso do Atendimento Educacional Especializado-UNESP. São Paulo, SP: MEC/SEESP, 2011.

Partilhando alguns momentos do registro da prática

O relato abaixo faz parte de um novo momento que pretendemos iniciar no CERVAC de registro da prática. Como resultado dessa ação, para esse ano de 2013 já deixamos reservados os últimos 50 minutos diários e encontros quinzenais entre pedagoga e psicopedagogas para trocas de experiências, acompanhamento do desenvolvimento os alunos e registro da prática.

Registro da Coordenadora Pedagógica (Mauricéa Santiago da Silva)

Registro da reunião pedagógica com os professores das turmas do Programa de Educação Inclusiva do CERVAC, anexo da Escola Municipal Júlio Vicente Alves de Araújo

A reunião foi realizada em Recife, em 28 de setembro de 2012, no CERVAC, das 8h às 12h, com intervalo às 10h para o lanche, com a presença das professoras Maria de Fátima Monteiro dos Santos, responsável pela turma de Deficiência Múltipla, Maria Janice Magalhães Correia de Melo, da turma de Transtorno Global do Desenvolvimento, Neuma Silva Siqueira, da turma da Educação de Jovens e Adultos, e com o professor Alberto Melquiades da Silva Filho, que faz o Atendimento Educacional Especializado. Essa reunião faz parte de uma programação de quatro momentos, sendo esse o nosso terceiro encontro junto com os professores, visando acompanhar a prática pedagógica e o desenvolvimento dos alunos, bem como proporcionar momentos de troca de ideias, socialização e fortalecimento da amizade entre o grupo de trabalho.

No primeiro momento foi apresentada a pauta a todos os professores, em seguida realizada uma leitura da mesma, com reflexão da prática a partir de cinco perguntas propostas por orientadoras, que foram elaboradas tendo por base o filme “Corrente do Bem”, de Mimi Leder: O que o mundo quer de nós? O que estamos fazendo para mudar o mundo? O meu trabalho é algo que vai além do meu fazer diário, que gera consequências, que provoca transformações? O que você está fazendo para mudar o futuro, para deixar a sua marca no mundo? Onde fica o reino das possibilidades em cada um de nós?

Essas perguntas visavam suscitar nos professores uma reflexão sobre a prática, de forma a que entendessem a importância do registro da prática para a disseminação de conhecimentos, a socialização de experiência e a troca de saberes. Penso que o objetivo foi atingindo e os profissionais ficaram propensos a escrever sua vivencias pedagógicas. Nesse momento partilhei algumas informações com relação aos conhecimentos adquiridos na Oficina de Sistematização da Prática Educativa CASA7 e me comprometi a enviar o material recebido a todos.

A metodologia utilizada foi o trabalho dirigido a partir de perguntas orientadoras que possibilitassem uma reflexão sobre sua prática pedagógica e, ao mesmo tempo, que estimulassem a vontade de registrar suas experiências em sala de aula. Um professor falou que “os desafios são muitos, que na verdade é preciso ter muita força de vontade e trabalhar com consciência do que se faz e gostar de fazer, o que ajuda a ter bons resultados e ser feliz”. Outro cita a importância do registro e que “trabalhar com o aluno especial já é uma possibilidade de mudar a forma da educação e aceitar quem tem algum tipo de deficiência”.

Coloquei que o bem extrapola qualquer questão e que a nossa prática precisa ser conhecida e divulgada para ser um exemplo de experiência. Aí perguntei quem sabe como M, aluna com autismo, foi alfabetizada. Que metodologias foram usadas, como foi a sua relação com os colegas, com o ambiente etc. Citei que “o que não está escrito, não existe”. Nesse momento insisti no argumento e indaguei: Cadê as informações? Como partilhar esse saber se não foi registrado em nenhum lugar?  Afirmei com ênfase: “... o seu trabalho é conhecimento e precisa ser registrado para que outros saibam e possam usufruir do que tem de bom e belo nele, pois não conhecemos…”.

Depois de socializar essa prática com todos, a professora falou que “usou vários métodos, até ‘Casinha Feliz’, os tradicionais e sócio-construtivistas”. A aluna M foi alfabetizada por Maria Janice Magalhães Correia de Melo, da turma de Transtorno Global do Desenvolvimento, e incluída em uma escola da rede municipal, no ensino regular, no ano de 2012. Está sendo um processo de inclusão bem difícil, devido às várias barreiras atitudinais existentes no interior das escolas e nas famílias.

A conversa continuou e outra professora falou: “precisamos deixar algo de bom para partilhar com os outros, o que nossos alunos aprendem e o registro do que fazermos são formas de partilhas os escritos”. Após esse momento, as indagações foram às vezes extrapolando o campo do tema especifico; ao mesmo tempo, eram questões pertinentes, tendo em vista os últimos acontecimentos e as mudanças organizacionais da instituição, entre outras questões mais estruturais e polêmicas. As inquietações foram sendo citadas aos poucos e partilhadas por todos, uns concordavam outros não: “o geral do CERVAC esqueceu o Programa de Educação”, citava um. “Está faltando mais apoio na área de atendimento dos outros profissionais”, falava outro. “Os alunos precisam de um ambiente de descontração e uma recreadora”, dizia outro. “O bom disso tudo é que o nosso grupo é unido e temos o mesmo tipo de pensamento para encaminhar as questões” dizia outra.

Depois passei para o segundo momento, com a seguinte pergunta: como vai a turma? Quais são as novidades boas e as preocupações de vocês? Agora, ao escrever, percebo que naquele momento os professores já estavam partilhando suas inquietações, que não havia nem necessidade daquele recorte; foi muita falta de atenção e pragmatismo demais em um em momento tão único. Então saí do foco do educador e passei para o processo de aprendizagem dos alunos. Cada profissional foi falando dos seus alunos individualmente, às vezes os demais faziam perguntas ou colocações, sugestões de como resolver as questões ou citando exemplos práticos de sala de aula, com situações parecidas.

A partir da problemática dos alunos que iam relatando ou da lacuna em algum serviço, já fazíamos o encaminhamento da questão, a exemplo do caso do aluno R, que estava sem atendimento psicológico. Foi chamada a psicóloga na reunião para esclarecer alguns fatos de organização de horários e novos procedimentos.

Ficou acordado que em 2013 vamos fazer reuniões com as famílias e deixar claro as necessidades de atendimentos na área clínica para os alunos. Outra questão definida é que vamos procurar formas de participar de uma reunião do PECONDUZ (programa do governo estadual que só transporta os alunos para atendimento clínico, não considerando o atendimento em sala de aula). Os professores citaram que as dificuldades dos alunos eram mais de ordem pessoal, por problemas familiares e/ou ocasionado pela sequela da deficiência, agravado pelo excesso ou falta de medicação no momento certo. A professora Janice solicitou apoio para a marcação de médicos para os alunos L e L, quando definimos solicitar ajuda da Assistente Social. Eu e a professora explicamos que foi realizada uma visita a casa deles, que são gêmeos com diagnóstico de Espectro Autista. A reunião foi com a avó materna, pois a mãe, devido a problemas sociais, tinha deixado os filhos a cuidado da avó, uma senhora bem cansada com a dureza da vida…

Em seguida, a professora Neuma relatou que estava fazendo círculos de aprendizagem com sua turma do EJA, que atendeu cada aluno individualmente e em grupo, que faz trabalho com o concreto, tendo por base a realidade dos alunos, que uns avançam e outros retrocedem na aprendizagem, que sua metodologia é de autonomia construída coletivamente. Após cada professor colocar suas vivências em sala de aula e a situação individual dos alunos, com suas necessidades pedagógicas e sociais, passamos para outro ponto da reunião. Vimos as proposta de educação para o CERVAC até dezembro de 2012, o calendário foi distribuído, verificamos se o Plano de Desenvolvimento Educacional está sendo posto em prática e como está sendo realizado. Os professores citaram que não estão fazendo na íntegra, pois o plano não se adéqua à realidade, mas que a anamnese contribuiu muito para conhecer a realidade dos alunos. Foi ainda apresentado o calendário de outubro a dezembro 2012, com atividades festivas. Agradeci a todos pelas produções pedagógicas dos alunos e alunas, tão belas que tornam o ambiente mais lúdico e acolhedor.

Um ensaio de síntese

Talvez para entender melhor por que escolhi fazer esse projeto, nessa linha de ação, seja necessário contextualizar o início do trabalho com educação no âmbito do CERVAC. Para entender como tudo aconteceu…

Pensar no desafio de realizar um trabalho de educação com crianças e adolescentes com deficiência é uma questão muito mais desafiadora do que a princípio pode parecer. Foram muitos os questionamentos e reflexões, e foi a partir das dúvidas e análises das possibilidades para atender às necessidades surgidas no dia-a-dia da práxis pedagógica que surgiu o trabalho de educação como mais uma área de ação no CERVAC.

No ano de 2007, o Departamento de Educação Inclusiva estabeleceu um convênio com a Prefeitura Municipal do Recife, oferecendo escolarização para quatro turmas, como anexo da Escola Municipal Júlio Vicente Alves de Araújo. Não foi fácil iniciar o trabalho, mas não impossível, devido à própria experiência do CERVAC. Talvez tenha sido a pulsão de vida que nos move que nos impulsionou a tentar realizar esse trabalho, com a perspectiva de ser capaz de mover destinos, de maneira a nos permitir fazer do labor diário algo em prol do crescimento nosso e do outro.

A conquista desse convênio foi resultado de um trabalho que já havia sido realizado muito antes, escrito por mim em 2002 para elaboração do Projeto Político Pedagógico da área de Educação do CERVAC.

A semente foi plantada com aquela decisão de iniciar o trabalho de educação no CERVAC. O início foi em 1991, a partir do desejo de um integrante da equipe em dar assistência específica na área pedagógica a uma criança com Síndrome de Down que estudava pela manhã e à tarde frequentava o CERVAC. Em conversa com a mãe, fui percebendo que a criança estava com o seu tempo diário todo preenchido, que precisava fazer atividades escolares em casa, à noite, quando já estava cansando e indisposto para fazê-las. Além disso, apresentava dificuldade para acompanhar o nível da turma na escola. Visando atender à necessidade dessa criança, foi realizado um esquema pela área de linguagem, que tinha um programa voltado para estímulos à leitura, desenvolvimento da linguagem e percepção, concentração, atenção, audição, memória que atendesse à criança, ajudando-a na realização das atividades escolares de casa. Ficou claro que não era suficiente estimular os familiares dessa criança a matriculá-la em outra escola, principalmente por considerarmos as barreiras arquitetônicas visíveis e os preconceitos e discriminação, além do cansaço da mesma.

Com o passar dos anos, o trabalho tomou outra dimensão pedagógica. Além de prestar suporte pedagógico para a realização das tarefas de casa, ampliou o atendimento para reforço em salas de alfabetização a alunos do Ensino Fundamental com dificuldade. Passamos a funcionar com turmas de Educação Especial com nível de pré I e II, a fazer o acompanhamento individual e a inclusão no Ensino Especial, Fundamental da Rede Pública, Privada e comunitária.

Ousamos dizer que estamos entre os primeiros na luta contra a discriminação, quebra de tabus e estigmas, gerados a partir de preconceitos causados muitas vezes pela falta de informação ou assimilação de valores sociais preconcebidos. Na época não existia área de educação, o processo foi compartilhado com todos sem diferenças de áreas de trabalho. O que importava para nós, como diz Milton Nascimento em sua música, era “cuidar do broto”…

Avançamos muito, mas ainda temos um desafio diante da atual conjuntura organizacional do CERVAC. Com uma gama de profissionais de varias áreas, como psicologia, fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional etc., verifica-se a necessidade dos demais profissionais da instituição compreenderem de forma mais sistemática a real importância do trabalho de educação desenvolvido no CERVAC, como forma de promover as condições socioeducativas de atendimento às dificuldades dos educandos, de modo a favorecer a sua inclusão na rede de ensino. Isso é realizado a partir de uma abordagem interdisciplinar, percebendo o aluno como um ser único, não em partes fragmentadas. Além disto, o CERVAC, por estar completando 25 anos, está vivenciando um momento de reestruturação de seus trabalhos.

Percebemos que, por parte dos demais profissionais e às vezes até dos professores e da sociedade em geral, há dúvidas sobre as reais condições de aprendizagem e a presença da pessoa com deficiência no ambiente escolar. Existem várias barreiras atitudinais e arquitetônicas, como cita Mantoan (2006, p.60): “o primeiro equívoco que pode estar associado a essa ideia é o de que alguns vão à escola para aprender e outros unicamente para se socializar. Escola é espaço de aprendizagem para todos!”. Essa afirmação converge com as mudanças ocorridas nas políticas públicas de oferecimento de educação inclusiva, que são nada mais que fazer justiça a direitos que durante muito tempo foram negados.

Ao finalizar as Oficinas de Sistematização da Prática Educativa CASA7, não ficaram apenas inquietações pessoais de uma coordenadora pedagógica, mas um projeto bem concreto que está em processo de elaboração e que está sendo construído a partir de sugestões de colegas de trabalho e escutas do coração. Partilho o projeto com vocês não como um produto acabado, mas como o início de um novo tempo de formação no Programa de Educação Inclusiva no CERVAC.

A principio surgiram várias propostas para a definição do foco do projeto, dos conteúdos e do público-alvo. A questão foi refletida na reunião de coordenação da instituição, quando ficou definido que seria elaborado um curso com abordagem profissionalizante. Diante das mudanças estruturais no funcionamento da instituição para o ano de 2013, ficou evidente a falta de compreensão por parte de alguns profissionais sobre a real importância do trabalho da instituição no campo da educação inclusiva e sua importância para o processo de inclusão da pessoa com deficiência. Assim, é necessário um curso para aprofundamento desta questão e socialização das práticas exitosas em alfabetização nas turmas com alunos com transtornos de Desenvolvimento Global Evasivos, de Deficiência Física com Paralisia Cerebral e Educação de Jovens e Adultos.

Diante da possível ameaça de término do trabalho de Educação no CERVAC, entendemos que esse projeto vai possibilitar a todos conhecerem com profundidade as experiências exitosas em educação na instituição e se apropriarem para partilhar.

Aprendizagens durante as Oficinas de Sistematização

  • Percebemos que precisamos avançar mais no processo de registro da prática.
  • Percebemos a nossa dificuldade em escrever.
  • Percebemos que o ativismo dilui o belo e o pedagógico, que o coletivo é perigoso, forte e doce como uma colmeia de abelha, que nunca sabemos tudo e que estamos sempre aprendendo.
  • Foi duro perceber que, sendo coordenadora pedagógica, nunca ousei propor um projeto de capacitação interna na instituição. Foi maravilhoso construí-lo.

No caminho sempre encontramos obstáculos, às vezes mais do que facilidades, mas estamos na estrada.

2 Responses to 3. Centro de Reabilitação e Valorização da Criança – CERVAC
  1. Maria Risomar Passos da Costa agosto 20, 2013 at 22:05 Responder

    Quando fui estagiar no cervac, não pensei que fosse aprender tanto com aquelas crianças que apesar das necessidades especiais de cada uma delas são inteligentes e sensíveis, aprendi muito, e tenho saudades de cada uma , uma saudade diferenciada.Peço permissão aos diretores para fazer uma visita técnica com duas colegas, etapa final do curso de Especialização em Educação Especial, Pela Funeso. Agradeço a todos que me acolheram.


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