1. Auçuba

PROJETO DE FORMAÇÃO DE EDUCADORES – PROGRAMA OI KABUM! ESCOLA DE ARTE E TECNOLOGIA RECIFE

Paula Ferreira e Michela Albuquerque

 

Contexto e histórico da organização e do Programa Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia Recife

O Auçuba é uma organização que atua há 23 anos pela causa de crianças, adolescentes e jovens. Surgiu como grupo em 1984 e se constituiu como ONG a partir de março de 1989. Desde então vem desenvolvendo projetos dirigidos a jovens, sobretudo àqueles que se encontram em áreas e condições que gerem uma situação de menor oportunidade socioeconômica. Esses projetos, que tem na juventude o seu principal “público” de diálogo, guardam forte relação com o “Escola de Vídeo” – cuja criação e realização coincide com a fundação do Auçuba. É, portanto, a partir desse projeto que a comunicação e educação, entendida como princípio pedagógico, passa a ser experienciada e a amparar e aperfeiçoar as metodologias de formação desenvolvidas pela organização.

Em 2006, em função desse histórico e trajetória, o Auçuba passa a realizar a “Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia Recife”, uma iniciativa do Instituto Oi Futuro voltada para a juventude popular urbana de quatro cidades: Recife, Salvador, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.

Nesse momento, início da Escola Oi Kabum! em Recife, do ponto de vista da “realidade da organização”, o contexto interno do Auçuba apontava para maturidade tanto política, no cenário local e nacional – naquilo que se relacionava ao que desejava alcançar através da sua missão -, quanto maturidade metodológica, tendo em vista o próprio Projeto Escola de Vídeo, que iniciava uma nova etapa ao fechar um ciclo formativo de três “momentos” (Formação, Núcleos de Produção e Núcleo de Comunicação Comunitária). Frente a este cenário, a realização da Oi Kabum! permitia capilarizar as ações de formação, já que o projeto possibilitava ampliação do público direto (80 adolescentes na primeira etapa de formação, de 18 meses), da atuação geográfica (ampliada para 10 comunidade do Recife), do seu quadro técnico (contração de 25 profissionais, entre educadores e equipe de apoio) e, por último, da própria formação, que além de comunicação e educação, passa a agregar arte e tecnologia, pensada em diálogo com as quatro linguagens técnico-artísticas abarcadas na Escola: fotografia, design gráfico, computação gráfica e vídeo – sendo esta última “historicamente” abordada nos projetos de formação do Auçuba, quer junto à juventude popular urbana, quer junto a professores de escolas públicas. Somavam-se às quatro linguagens: as transversais História da Arte, Oficina da Palavra, Comunicação Digital e Convivências (desenho do programa em 2006).

Desse contexto inicial ao atual momento, o cenário interno mudou – também em consequência das inúmeras mudanças e transformações do cenário externo: o campo de atuação das ONGs. Atualmente, seis anos após o seu início e começando a formação da sua quarta turma, a Oi Kabum! continua sendo uma iniciativa relevante e cada vez mais desafiadora para o Auçuba, sobretudo pelo lugar político que ocupa: um projeto social, criado e mantido financeiramente por um instituto do terceiro setor (braço social de uma grande corporação), realizado por uma organização com trajetória e referências construídas em um “lugar social” e político distinto. Internamente o Auçuba experiencia um contexto paradoxal e complexo. Embora haja um projeto que consegue manter-se relativamente com segurança financeira, o que reflete na estabilidade da sua equipe, há projetos que estão sem financiamento e outros que são realizados com interrupções, em função da instabilidade de recursos – o que traz impactos em vários níveis e de várias ordens: financeira, política etc.

Linha do Tempo – Marcos da formação na ONG Auçuba Comunicação e Educação

Ano Marco de formação Observações
31 de março de 1989 O Auçuba se constitui como ONG. Surgiu como grupo em 1984, com a finalidade de desenvolver trabalhos na área de produção cultural.
1995 O Projeto Escola de Vídeo, voltado à formação audiovisual de adolescentes, recebe o seu primeiro apoio financeiro. Projeto passa a ter objetivos estruturados e a ONG, a partir daí, delineia sua metodologia de ensino aprendizagem em comunicação e educação, tendo o audiovisual como base.
2000 Criação do Programa Só Para Fazer Mídia, incluindo, além de outras ações estratégicas junto a veículos e profissionais de comunicação, uma ação formativa com estudantes de comunicação social.
2000 – 2001 Formação de professores de escolas municipais de Olinda, por meio do Projeto Comunicação e Educação, voltado para a sensibilização desses professores quanto ao potencial pedagógico da comunicação, com ênfase no audiovisual.
2001 Recebe o Prêmio UNESCO como uma das cinco experiências de Pernambuco que têm resultados relevantes e efetivos na prevenção da violência entre jovens de comunidades de baixa renda, ficando entre as 30 instituições brasileiras com êxito em metodologias de formação.
2001 – 2002 A premiação da UNESCO possibilita estruturar uma proposta de oficinas, mediada/facilitada pelos jovens que foram formados pela Escola de Vídeo no Escola Aberta. Jovens formados no Auçuba passam a atuar como educadores sociais.
2002 Saída de Ricardo de Paiva – coordenador da organização e um dos fundadores da ONG.
2002 Cristina Félix, que já integrava a equipe da organização, assume a coordenação geral do Auçuba.
2004 Saída de Flávia Ferraz, então coordenadora do Programa Canal Auçuba, onde os projetos e demais ações de formação de adolescentes, jovens e professores (atendimento direto) estavam inseridas.
2004 Saída de Cristiane Félix. Assume a coordenação geral Gorete Linhares, então coordenadora do Programa Só Para Fazer Mídia.
2006 Aprovação e financiamento pelo Fundo da Infância e Adolescência (FIA) de duas ações:

  • Núcleo de Comunicação Comunitária, uma das etapas do Projeto Escola de Vídeo;
  • Articulação, sensibilização e capacitação, no âmbito do Programa Só Para Fazer Mídia, de conselheiros de direitos e tutelares em todo estado de Pernambuco, visando ao fortalecimento das ações de comunicação desse segmento.
A realização/implementação do Núcleo de Comunicação Comunitária possibilitou tanto a ampliação do atendimento direto (70 adolescentes), quanto geográfico (7 comunidades).
2006 Ingresso de Janayna Cavalcante como assessora pedagógica da organização. Início do projeto de formação da equipe do Auçuba, que passa a inserir em sua rotina ações de cunho formativo, estruturando-se em: planejamento, avaliação, seminários de formação, encontros pedagógicos periódicos.
2006 Início da parceria com o Oi Futuro para realização da Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia Recife Ampliação do atendimento direto (80 jovens), da atuação geográfica (10 comunidades) e da equipe da organização: contratação de 16 técnicos, dentre os quais 11 educadores/as.
2009 O Projeto Escola de Vídeo interrompe as ações de atendimento direto, por falta de apoio financeiro.
2008 Saída de Gorete Linhares. Mudança no desenho da gestão institucional, que passa a ser através de três coordenações executivas nas áreas estratégicas: administrativo financeiro (Orleiza Chaves); comunicação e mobilização (Rosa Sampaio); mobilização e articulação Comunitária (Paula Ferreira).
2009 Saída de Janayna Cavalcante. A organização deixa de ter uma assessoria pedagógica e a função passa a ser restrita a cada projeto e às possibilidades de contemplar a função em seus orçamentos.
2009 Rozário Azevedo assume por um ano a assessoria pedagógica da Oi Kabum! Recife.
2010 Helena Tenderini assume a assessoria pedagógica da Oi Kabum! Recife.
2010 Iniciam-se as atividades do Cine Bomba Cultura e Comunidade, ação do Projeto Escola de Vídeo, voltada para a consolidação de um cinema comunitário na Bomba do Hemetério e entorno. Além das exibições ao ar livre, o Cine desenvolve atividades de cunho formativo (oficinas, exibições e debates) em escolas públicas da Bomba do Hemetério e entorno.
2012 Saída de Helena Tenderini. 

 

Objetivos do Programa Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia Recife – IV Turma

Considerando as dimensões técnica, humana, política, ética e estética, a Oi Kabum! tem por objetivo investir na educação de maneira a fortalecer o potencial crítico e criativo dos jovens ao longo das duas etapas formativas do Programa – que se desenvolvem nas linguagens de Design, Computação Gráfica, Vídeo e Fotografia, aliadas aos conteúdos de História da Arte e Tecnologia, Ser e Conviver, Palavra e Web. O Núcleo de Produção, segunda etapa da Oi Kabum!, visa à inserção dos jovens no mundo do trabalho pelo viés da arte, tecnologia e comunicação, estimulando-os a atuarem em diálogo com os eixos: comunidade, educação, mercados e projeto autoral.

Objetivos

1. Contribuir para a formação de pessoas conscientes, capazes de levar uma vida cidadã lúcida e construtiva, fraterna e corresponsável aliada a uma melhor preparação para o trabalho, em um mundo em que os avanços tecnológicos modificam constantemente o sistema de produção.

2. Oferecer oportunidades de formação pessoal, cultural e profissional mais abrangente: uma educação centrada no desenvolvimento humano.

3. Promoção da inclusão social e digital, a partir de uma educação entendida nas dimensões política, técnica e humana.

4. Capacitação e inserção de jovens moradores de espaços populares no mundo do trabalho.

5. Formação de sujeitos críticos e criativos, buscando a transformação das suas realidades.

6. Experimentação e criação artística.

7. Desenvolvimento de iniciativas empreendedoras.

8. Participação e atuação comunitária.

Etapas (acontecem simultaneamente)

Etapa 1 – Formação Básica: 18 meses

Etapa 2 – Formação Avançada/ Núcleo de Produção: 18 meses

Público

Jovens moradores de 12 comunidades populares de Recife e Olinda, sendo 90 jovens vinculados à etapa 1 (faixa etária: 16 a 19 anos) e 18 vinculados à etapa 2 (19 a 22 anos).

Equipe

Coordenação Geral: Michela Albuquerque (desde 2006)

Coordenação Assistente: João Lin (desde 2007)

Assessoria da Coordenação: Márcia Andréa Rodrigues (desde 2006)

Equipe de Apoio: Márcia Oliveira, Maurício Oliveira e Lane Almeida (desde 2006)

Gestão de Equipamentos: Élida Santana (desde 2009)

Educadores

1. Vídeo: Edmilson Assunção, o Pitela (desde 2006) e Alan Oliveira (desde setembro de 2012)

2. História da Arte e Tecnologia: Gustavo Melo, o Grilo (desde 2008 como educador de vídeo, mas assumindo essa área transversal a partir de julho de 2012)

3. Computação Gráfica: Anderson Lucena (desde 2009 como educador da linguagem design gráfico, mas assumindo computação gráfica a partir de julho de 2012) e Jeorge Pereira (desde 2011)

4. Ser e Conviver: Leta Vasconcelos (desde 2009) e Mauro Delê (desde 2008)

5. Fotografia: Vicente Eduardo (desde 2008)

6. Palavra e Web: Hugo de Lima (desde 2009)

7. Design Gráfico: Cleto Campos (desde julho de 2008 como educador da linguagem computação gráfica, mas assumindo design gráfico a partir de julho de 2012)

8. Núcleo de Produção: Márcio Soares (desde 2010) e Orlando Nascimento (desde 2011 como educador do núcleo transversal palavra e web, mas assumindo o Núcleo de Produção a partir de julho de 2012)

Caracterização e atribuições dos/as educadores

A equipe de educadores é bem diversa no que diz respeito à formação, referências e trajetória profissional, quer na sua área de atuação específica (linguagens), quer no campo da educação. Uma parte ingressou na Oi Kabum! tendo experiência com educação popular junto à juventude popular urbana. Outra parte (a maioria) tem na Oi Kabum! a sua primeira experiência em educação. Por ser um projeto contínuo, a equipe tende a ter uma permanência maior, com pouca rotatividade. A equipe de educadores/as da primeira etapa tem como principais atividades/atribuições o planejamento e a realização das aulas (diárias), o monitoramento diário e a reflexão sobre a prática (feitos através do software kairos, criado em função das necessidades do grupo/equipe), a participação nas reuniões pedagógicas (agora semanais) – que têm caráter de discussão e aprofundamento da experiência, de consulta e acolhida de sugestões frente aos rumos do projeto, bem como de formação continuada. Além disso, há a produção trimestral de relatórios narrativos, avaliações que acontecem ao final de cada eixo temático (identidade, comunidade e cultura) e de atividades como mostras, transição entre eixos, seminários etc.

Os educadores do Núcleo de Produção estão inseridos em todas as rotinas do projeto, tendo em vista que o núcleo está integrado ao todo da Oi Kabum!, sendo a sua segunda etapa. Neste núcleo, portanto, os educadores planejam, participam das atividades de formação, avaliação, reuniões. Mas em função da especificidade da etapa – que não é estruturada a partir da realização de aulas diárias, mas de uma formação aplicada à prática através da realização pelos/as jovens de trabalhos remunerados para os mercados locais de produção de imagem, projetos autorais, oficinas, atuação comunitária etc. -, o trabalho de planejamento e monitoramento é diferenciado.

Contexto – Formação de Educadores Oi Kabum! Escola de Arte e Tecnologia Recife

O atual projeto de formação de educadores da Oi Kabum! Recife responde, ainda que de forma atual e  precisa, a uma reflexão registrada na proposta do I Seminário de Formação da Equipe realizado em julho/agosto de 2008, à qual sempre retornamos ao planejar novas atividades formativas para e com a equipe:

“uma escola de Arte e Tecnologia, desenvolvida por uma ONG, a partir de um programa proposto por um Instituto do terceiro setor, e em parceria com o poder público, é certamente o espaço de confluência de variadas questões de ordem política, técnica, estética e, sobretudo, pedagógicas. Uma prática pedagógica em tal contexto é geralmente reconhecida como não formal, entretanto, bastante formalizada em seus processos e rituais. É também não escolar, porém, organizada a partir de uma referência escolar, mas sem restringir-se a um modelo de escola tradicional. Um profissional para atuar neste cenário precisa compreender algumas dessas questões. Logo, é necessário que se entenda como parte dessa complexidade, sendo agente de um dos processos mais importantes do todo que compõe a escola: o contato direto com os jovens no cotidiano, dentro do que a ciência da educação chama de “relação pedagógica” (relação educador-educando). Além disso, um currículo, mesmo quando não oficial, se constitui como campo de conflito sobre visões e projetos de mundo que qualquer prática educativa tem como missão promover. Neste sentido, a criação de um espaço de diálogo ampliado é imprescindível para que o coletivo pedagógico possa apresentar e reconhecer seus consensos e dissensos a respeito das questões envolvidas em sua prática sejam elas de natureza conceitual ou pragmática”.

De maneira esquemática, pode-se traduzir o texto balizador acima afirmando que o projeto de formação continuada de educadores da Oi Kabum! Recife nasceu, e justifica-se que permaneça assim, “respondendo” a alguns grandes desafios e necessidades que deles decorrem, identificados tão logo a organização, em 2006, decidiu realizar em parceria com o Oi Futuro o programa (de sua autoria) Oi Kabum! Dessa forma, as atuais ações de formação de educadores em curso guardam forte relação com esses desafios iniciais (que permanecem em vista) – aos quais se somam, evidentemente, outros – e com as mudanças já empreendidas ao longo de quatro ciclos formativos (quatro turmas) da Escola em Recife. De maneira geral, temos ainda hoje como elementos norteadores da formação continuada da equipe:

  • A necessidade de alinhar e consolidar junto à equipe direta do programa e demais integrantes da organização o diálogo da educação e os macro temas/conteúdos que amparam o projeto pedagógico da escola: juventude, arte e tecnologia, comunicação, mundo do trabalho.
  •  A necessidade de delinear junto a profissionais que assumem o papel de educadores sociais, um perfil/identidade profissional que a maior parte da equipe passa a experienciar pela primeira vez e que vai se construindo e fortalecendo simultaneamente à própria vivência da “nova prática”. Soma-se a isso a necessidade de refletir e compreender o que significa identidade organizacional: ser um profissional/educador de uma ONG, o que este papel nos traz de desafios? O que queremos com a nossa atuação profissional? O que essa atuação efetivamente busca? Em que se distingue de outras?
  • A perene e contínua necessidade de refletir sobre a prática pedagógica – essencial a qualquer projeto de formação/educação.
  • A necessidade de discutir e refletir continuamente sobre os significados, sentidos, desafios e objetivos de fazer educação voltada à juventude popular urbana – a partir do complexo e desafiador diálogo e parceria de organizações que construíram suas trajetórias em lugares sociais, políticos e econômicos distintos: uma organização da sociedade civil organizada, um instituto do terceiro setor (braço social de uma grande corporação) e poder público (governo) local.
  • A necessidade de fortalecer laços entre os profissionais que integram a equipe, buscando aproximar pessoas e seus saberes, compreendendo oposições/tensões acerca da arte, política, educação, formação etc., construídas a partir de realidades bem distintas: universidades – educação popular; circuitos consolidados (hegemônicos) de produção artística – circuitos alternativos e independentes; classe média – classe popular etc. Essas tensões trazem algo frutífero e novo no campo da educação, com vistas à efetiva e tangível construção coletiva do projeto pedagógico da escola.

Da percepção dos desafios e necessidades que os cercam, a formação da equipe tem como metas para a aprendizagem dos educadores e educadoras:

  1. A elaboração de currículo do programa, tendo em vista a conexão dos temas estruturantes à formação na escola (Comunicação, Arte e Tecnologia, Cultura, Mundo do Trabalho) com o contexto e realidade dos jovens, considerando como princípio norteador uma visão desses jovens como sujeitos políticos, críticos, criativos; capazes de autonomia e reflexão e de mudanças na própria vida.
  2. A construção, com os jovens, de itinerários formativos que tenham por base a arte, a tecnologia e a emancipação, os instrumentos para que desenvolvam seu potencial e possam se tornar adultos autônomos, solidários e produtivos, visando contextualizar histórica e socialmente a aprendizagem, à medida que os sujeitos reconstroem e recriam ativamente a cultura na qual estão inseridos.
  3. Construção coletiva de um planejamento integrado e sistêmico.
  4. Pesquisas e vivências com vistas à compreensão do campo de atuação das organizações sociais.
  5. Compreensão do papel do educador social no contexto contemporâneo, tendo em vista as especificidades do projeto, o que requer: abertura epistemológica para discutir novos campos de conhecimento (como arte, tecnologia e comunicação) e disposição para a vivência baseada em experimentação estético pedagógica.

O coordenador pedagógico

É da complexidade da proposta pedagógica do programa, das atribuições e expectativas frente aos educadores na consecução dos objetivos da escola que se delineia o perfil do coordenador pedagógico. Papel cercado de desafios nas organizações sociais, na Oi Kabum! isso se amplia em função de diversos fatores, um deles o fato da coordenação pedagógica fundir-se com a coordenação do Programa. Na Oi Kabum! Recife não há um coordenador pedagógico, mas uma assessoria que passa a compor a equipe da escola em 2009 – fator predominante para o fortalecimento dos/as educadores/as, do currículo da escola e, consequentemente, da formação dos jovens. Antes disso, por cerca de um ano e meio, a Oi Kabum! não contava com assessoria, sendo a coordenação do programa totalmente responsável pelo acompanhamento pedagógico. Até conseguirmos integrar o assessor à equipe, a coordenação da escola contava com o apoio da assessoria pedagógica da organização – cujo trabalho era apoiar pedagogicamente todos os projetos e programas desenvolvidos pelo Auçuba. Por conta de fatores econômicos, a função deixa de existir na instituição e passa a compor a equipe de cada projeto – já que no orçamento é possível aprovar recursos que arquem com este profissional.

Dessa forma, tomando as especificidades do Programa Oi Kabum!, e ainda refletindo sobre os desafios que “cercam” a função da coordenação geral e pedagógica dessa Escola de Arte e Tecnologia, e os benefícios e fragilidades que este duplo papel acarreta, é importante destacar que coordenar a Oi Kabum! é, antes de tudo, pensar e acompanhar “o pedagógico” e tudo o que isso envolve… E envolve muita coisa, já que o tempo todo estamos voltando a questões que permanecem de alguma forma em aberto. Duas delas, que parecem fundamentais e dizem respeito ao exercício diário de coordenar a escola, são recorrentemente postas e tocam naquilo que é princípio e bandeira das duas organizações que respondem pela realização da Oi Kabum!: o Auçuba e o Oi Futuro. As duas “questões-princípio” estão ligadas por outra que, compreendemos, corresponde ao elo entre as organizações, logo, as une e as tornam parceiras. São elas que orientam as ações da coordenação, a saber:

  • Questão-princípio Auçuba: por que Comunicação e Educação?
  • Questão-princípio Oi Futuro: por que Arte e Tecnologia?
  • Questão-elo: por que juventude popular urbana?

De maneira prática, tentar responder a questões como as listadas acima, frente à função/papel do coordenador pedagógico, o coloca em uma situação em que tem de empreender ações de pesquisa, mas também vivências em um cenário dinâmico como é o da educação, da arte, das novas tecnologias, da juventude… E este é o papel que necessita melhor ser desempenhado, pois fortaleceria o projeto, tanto interna, quanto externamente – já que é a direção externa que ao mesmo tempo abre e alimenta a escola, no sentido de possibilitar que seja conhecida como espaço de produção de conhecimento, de reflexão e produção em comunicação, educação, arte e tecnologia… De experimentação de metodologias que pensam e repensam a educação em função dos direitos e da crença no potencial da juventude popular urbana. Potencializar o papel da coordenação, pensar que pode ser diferente, aponta, portanto, para fazer do projeto uma iniciativa menos “ensimesmada”, para dentro, “uterina”… Os desafios com a equipe no que diz respeito à sua formação, naquilo que é “essencial” ao papel do educador social no Auçuba e, consequentemente, na Oi Kabum! ainda são muito exigentes e desequilibram o movimento dentro – fora, interno – externo.

Entretanto, é importante reconhecer que a própria formação da equipe é marca de ousadia do projeto e mesmo uma linha de ação que necessita ser reconhecida como tal. Os desafios de agregar profissionais que não haviam atuado como educadores, tampouco no “mundo” das ONGs, fizeram com que estratégias e ações importantes e significativas fossem pensadas e desenvolvidas. E assim o projeto, ao passo que tem na formação da equipe um “eterno” desafio, tem também aí, paradoxal que pareça, um “diferencial” e uma fortaleza.

Sobre as ações de formação e como estão organizadas hoje, vale ressaltar que o objetivo é que, de fato, sejam ações continuadas. Etapas: Formação Básica (etapa I) e Formação Avançada – Núcleo de Produção (Etapa II), ambas com 18 meses. As atividades que chamamos de formativas acontecem em reuniões semanais (todas as quartas-feiras, das 14h30 às 18h) envolvendo toda a equipe. Os encontros são mediados pela coordenação e assessoria pedagógica, mas a equipe também é estimulada a facilitar as reuniões ou parte delas, normalmente abordando um conteúdo sugerido pela coordenação e assessoria, ou que tenha emergido da prática e é sugerido pelos/as próprios/as educadores/as. De maneira esquemática, as reuniões estão assim estruturadas/organizadas:

  • Informes sobre o projeto, novas atividades, parcerias, necessidades, mudanças.
  • Encaminhamentos de atividades.
  • Troca sobre o dia-a-dia com os/as jovens em sala de aula, acompanhamento dos planejamentos.
  • Aprofundar discussões sobre temas/questões que emergem da prática, da vivência com os/as jovens.
  • Realização de atividades que buscam discutir, através de metodologias específicas, conteúdos que são estruturantes ao projeto pedagógico do programa: educação, juventude, mundo do trabalho, arte e tecnologia, projeto de vida, comunicação etc.

Além das reuniões, são realizados seminários de formação, com duração mínima de uma semana, onde a equipe aprofunda discussões, produz e interage com convidados que compõem a programação desses seminários. Ao final de cada eixo temático (identidade, comunidade e cultura), também são realizadas atividades de cunho formativo a exemplo das transições.

Síntese

Algo importante no início do Programa Oi Kabum! em Recife, em abril de 2006, foi garantir na carga horária da equipe um número de horas exclusivas para a sua formação, para troca pedagógica entre seus integrantes. Nesse sentido, ao estruturarmos, em julho de 2008, o projeto de formação de educadores/as, este tempo específico (9h/mês até julho de 2012 e, a partir daí, 18h/mês) já fazia parte da rotina e dos acordos de trabalho com todos/as, ou seja: com isso fazendo parte da cultura do programa, todos os profissionais, com ênfase nos educadores, dispunham de agenda e de um tempo de qualidade para a formação. Além da clareza da instituição frente ao fato de que seus profissionais estão em constante aprendizagem e que a perspectiva da formação continuada é um princípio, isso fortaleceu e contribuiu muito positivamente para o que até então foi empreendido na formação da equipe e crescimento da escola.

Toda a trajetória da formação, desde o primeiro seminário e das ações que o antecederam, foi norteada:

  • Pela perspectiva da construção coletiva do conhecimento, traduzida no desejo de realizar planejamento coletivo.
  • Pela troca de saberes (em uma equipe tão distinta do ponto de vista da formação que trazia ao integrar a Oi Kabum!, bem como da sua experiência, ou não, no campo da educação e no diálogo com a juventude popular urbana).
  • Pela perspectiva transdisciplinar e pela imagem-conceito emblemática do rizoma.

Foram esses marcos conceituais que deram corpo e estrutura às atividades de formação, quer abarcadas nas reuniões semanais, quer nos seminários, quer nas semanas de planejamento e avaliação, etapas que constituem o todo do que hoje chamamos de projeto de formação da equipe. Em quatro anos, após termos delineado este projeto como essencial ao Programa Oi Kabum!, muito foi conseguido, um tanto não e outro tanto ainda há que se fazer.

Um dos maiores ganhos, entretanto, foi consolidarmos junto à equipe o espaço de formação, a cultura da reflexão sobre a prática, a importância da avaliação, do registro e da sistematização da experiência. A equipe se entende, portanto, vivendo um processo contínuo de aprendizagem e isso diz muito da abertura para as mudanças sempre em vista no Programa, assim como para consecução de objetivos tão complexos como os que engendram o projeto pedagógico da escola. Mesmo com alguma rotatividade, dos atuais 11 educadores, a grande maioria ingressou na equipe entre 2008 e 2009. A cultura da formação faz parte do perfil da equipe, até por ser bem evidente que o tempo dedicado às reuniões/formações semanais fortaleceu os/as educadores, trazendo resultados objetivos – a exemplo da consolidação de um currículo que responde a ementas, objetivos e conteúdos elaborados pelos educadores, coordenação e assessoria pedagógica e que articula temas estruturantes à formação na escola (Comunicação, Arte e Tecnologia, Cultura, Mundo do Trabalho) com o contexto e realidade dos/as jovens.

Hoje, percebemos um amadurecimento do Programa e avanços importantes no planejamento coletivo, sobretudo em função de dois fatores identificados a partir do acompanhamento pedagógico: a necessidade de nivelar a carga horária dos 11 educadores, antes variando entre 53h, 71h e 92h mensais, para as atuais 100h/mês e a criação do software de planejamento e monitoramento diário kairos. Frente a um planejamento mais sistêmico e horizontal ainda há desafios, mas os ganhos são tangíveis.

Algo que a consolidação do projeto de formação também foi evidenciando ao longo dos últimos quatro anos é a necessidade da coordenação e assessoria pensarem em atividades de formação a partir da vivência na sala de aula, acompanhando mais de perto a relação educador – educando e colhendo daí conteúdos a serem aprofundados nos encontros formativos semanais. Este é um ponto ainda lacunar e que, pela riqueza das iniciais experiências, deve fazer parte da rotina da assessoria pedagógica e coordenação, cujas demais atribuições atropelam essa atividade.

Como desafios que permanecem, pois perpassaram todas as ações do projeto de formação da equipe até então, temos, de maneira emblemática, que equacionar e equilibrar o que cabe à coordenação do Programa, que assume também o papel de coordenação pedagógica da Oi Kabum!, frente à formação da equipe e a todos os demais desafios que cercam o cenário dinâmico no qual se inscreve a escola: educação, comunicação, arte e tecnologia, cultura. Há, portanto, em paralelo e inseparável a isto, que se delinear melhor perfil, tarefas e atribuições da assessoria pedagógica, de modo a que possa ter mais efetividade no acompanhamento e no pensar pedagógico, no que fortalece a equipe, os jovens e o Programa. Um pouco dessa expectativa e necessidade se vislumbra com a ampliação da carga horária da assessoria pedagógica garantida para o novo ciclo do Programa em 2013.

Por último, ainda nos desafiando, temos:

  • Menor rotatividade do assessor pedagógico, visto que ao longo de cinco anos, tivemos cinco profissionais assumindo a função. Embora cada um tenha trazido contribuições ao Programa e à equipe, percebe-se que a saída de um profissional como este sempre desestabiliza o grupo, enquanto que a chegada do outro demanda tempo de acomodação – o que traz impactos e fragilidades à experiência.
  • Maior apropriação, pela equipe de educadores/as, da importância de cada um investir na própria formação de maneira mais autônoma. É necessário maior equilíbrio entre o que cabe ao Programa responder e colaborar e aquilo que cabe ao educador/a. Sem isso, todas as expectativas caminham no sentido de que a formação “se resolva” no tempo previsto na carga horária destinada as reuniões e encontro formativos abarcados na Oi Kabum!
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