3. Associação Cultural, Educacional, Desportiva Projeto Acreditar

Compartilhando aprendizagens

Isabela Souza Silva

Este trabalho faz parte do processo de formação pedagógica, realizado CASA7 Memórias e Aprendizagens, juntamente com a Fundação Tide Setúbal em parceria com o FICAS, e tem por objetivo registrar e refletir a prática que obtive juntamente com as crianças que acompanho no desenvolvimento social e educativo na Associação Acreditar. No decorrer desta tarefa é destacado o que pode ser útil, como aprendizado, para outros educadores com uma atuação parecida.

A Associação Cultural, Educacional, Desportiva Projeto Acreditar foi criada há dez anos pela iniciativa de duas holandesas Hanna e Ruth, com o Pastor Neto (que ainda está presente). O projeto conta com a aceitação e apoio da comunidade, residente do bairro União de Vila Nova, São Miguel Paulista. Temos parceiros como a Igreja Evangélica Betesda – Itaquera (SP), a Organização holandesa-braisleira Children Asking, além de termos parceiros no próprio bairro como a padaria e o açougue, além de pessoas físicas (padrinhos). Estou na fundação há um ano, enviada pela organização Children Asking para ajuda no desenvolvimento do projeto. Na associação contamos com o atendimento de 80 crianças, 40 por período, de 6-15 anos.

Esta sequência didática registrada nas oficinas CASA7 foi escolhida a partir da parceria que temos com a Organização Children Asking e com o programa PEDE (Programa Educacional de Desenvolvimento Escolar), que foi desenvolvido para crianças de6 a 12 anos. Neste processo atuei como educadora.

Reforço escolar

O objetivo foi auxiliar a criança no desenvolvimento e assimilação escolar, pois vimos que os educandos estavam com muitas dificuldades escolares, sendo que tinham até alunos que estavam repetindo o ano, ou ficando para recuperação.

Num primeiro momento então planejamos a divisão das turmas, que foi feita através de uma atividade pré-programada abordando a escrita (português) e leitura matemática. Escolhemos três turmas, pois este é o numero de educadores disponíveis para a aplicação do projeto. Após esta atividade “classificatória” realizamos as seguintes etapas:

  • Trabalhamos (educadores) mensalmente uma disciplina escolar específica, a cada terça-feira.
  • Cada educador planejou sua aula, especificamente para sua faixa etária, semanalmente.
  • Vimos o desenvolvimento de cada turma buscando equilibrar os alunos. Equilibrar no sentido de conhecimento, mas também de idade, por causa do desenvolvimento social.

Neste projeto, como foi citado, temos a parceria com a Organização Children Asking e utilizamos o material pedagógico confeccionado por eles, que é composto por apostilas das disciplinas escolares (Português, Matemática, Artes, Geografia, História, Educação Cristã, Brincadeiras e Jogos e Leitura). O programa pedagógico consiste em aprender fazendo atividades práticas, diferenciando da didática escolar tradicional, com atividades, cruzadinhas, jogo da memória, entre outros.

Etapas de desenvolvimento

As atividades referentes ao projeto de REFORÇO ESCOLAR já estavam sendo desenvolvidas. Os registros que fiz (abaixo) são relativos a duas etapas de desenvolvimento na minha turma de 9 a 11 anos de idade.

Primeiro Registro

Com as turmas divididas em três grupos começamos o desenvolvimento da atividade. Neste dia adotamos um caça palavras de matemática. Nesta atividade, foram passadas sete contas matemáticas de adição. O resultado de cada uma delas deveria ser encontrado, o número por extenso, no caça-palavras.

Vimos que quando eles recebem atenção individual eles conseguem desenvolver muito bem a atividade. Muitos reclamam que não fazem nenhum esforço para aprender na escola, pois não recebem atenção dos professores! Eles se interessam pelos exercícios/atividades que traz desafios para eles.

Todos se envolveram e tiveram ótima participação. Alguns pelo fato de saberem bastante sobre o assunto foram rápidos. Incentivei assim, a poderem ajudar os outros que estavam com dificuldades, os que ainda não haviam terminado, sentando ao lado e auxiliando. Eles possuem muita dificuldade, para trabalharem em grupo. Mas estão começando a desenvolver esta habilidade, se integrando.

Considerava que praticamente todos teriam extrema dificuldade. Mas não foi assim. Conduzi de forma tranquila, e prática. Quando começaram a surgir muitas dúvidas, meio que fiquei nervosa, mas me controlei e procurei reconhecer a dificuldade de cada um. Frente às facilidades me surpreendi e gostei muito. Instiguei mais a criatividade fazendo com que os educandos procurassem pintar, trazer “mais vida” e capricho para seu caderno. Deveria ter organizado melhor o material necessário, pois faltou lápis para todos. Nisso tive de sair, ai ficou mais difícil, pois deveria ter me programado com material a mais e/ou suficiente para todos os educandos.

Vejo que seria importante termos o acesso às cópias das atividades, pois mesmo sendo bom para desenvolvimento cognitivo economizaríamos tempo, podendo aplicar melhor em atenção pessoal a cada educando. Além disso, é sempre importante ter preparado todo o material para não deixar os educandos sozinhos.

Segundo Registro

Na terça-feira, 29 de maio de 2012, começamos a atividade com todas as crianças reunidas, cerca de doze crianças. Sempre as dividimos em três turmas conforme a idade, porém, como estava chovendo muitas crianças não vieram, então reunimos as que estavam presentes no mesmo ambiente.

Havíamos planejado dar a atividade de artes para eles. A atividade era MONOTIPIA, uma técnica artística de impressão, de cópia, muito simples. Para isso reuni o material que era tinta guache preta, azulejo, folhas de sulfite branca, rolo de pintura (para espalhar a tinta).

Esclarecemos sobre o que seria a atividade e todos se sentaram para começarmos. Um educador preparou para a primeira “obra de arte”. Colocou o jornal sobre a mesa para não sujá-la, depois colocou o azulejo sobre ele e colou tinta guache sobre o azulejo espalhando-a com o rolo de pintura. Todos queriam ser os primeiros. Eu escolhi uma criança para começar a atividade, de acordo com o combinado de que o educador escolheria alguém para começar, sendo que este educando deveria demonstrar compreensão e calma para esperar sua vez.

A criança foi requisitada a fazer um desenho utilizando seu dedo, mas seu desenho deveria ser algo espontâneo, “o que viesse à mente”. Todas as crianças olhavam esperando qual seria o desenho de seu colega de classe. A criança desenhou uma montanha, uma árvore e o sol.

Todos ficaram ainda mais agitados, quando me viram colocar sobre o desenho a folha de sulfite, e passar delicadamente a mão e retirar cuidadosamente a folha que estava com o desenho da criança.

Assim se seguiu a atividade, com todas as crianças fazendo seus desenhos. Algumas tiveram dificuldade, por relatarem que não sabiam desenhar. Com isso conversamos com elas, que elas só precisavam desenhar o que viesse a mente, não tendo por base comparação, ou o não saber desenhar. O importante é tentar. Assim todas acabaram fazendo a atividade e demonstraram que aprovaram os seus desenhos, pois estavam mostrando para seus amigos qual era e como estava bonito seus desenhos.

Após as folhas serem trabalhadas, foram todas postas sobre uma mesa maior para que pudessem secar. E víamos as crianças indo ver os seus próprios desenhos e dos seus colegas. Logo os desenhos secaram. E antes de terminarmos o trabalho de desenhar sobre o azulejo com as crianças, já pude entregar o desenho, de quem já havia feito, para que pudessem pintar os espaços em branco com lápis de cor, pois os desenhos já haviam secado.

Elas, então, foram se sentar sobre outra mesa, para poderem pintar. E quando a ultima criança fez seu desenho, procurei confirmar se faltava mais alguém, e uma criança nos disse: “Sim, vocês, tios.”. Logo, com esta INTIMAÇÃO, fomos obrigados a desenhar também. Ficamos felizes com esta “intimação”, pois prova como eles têm abertura de conversa e como eles nos vêm como parceiros no trabalho.

Ao terminarmos ficamos todos vistoriando e auxiliando na etapa deles pintarem os desenhos. Ao concluírem colocaram novamente em cima da mesa, que havia sido usada para secar os desenhos anteriormente.

Vimos a MONOTIPIA como algo aplicável ao reforço escolar, por ser uma técnica diferente. Ela estimulou o aprendizado, a coordenação motora, o lado sensitivo das crianças, por poderem tocar na tinta, no azulejo. Estimulou a criatividade, tanto para fazer o desenho, quanto para pintar depois.

Aprendizagens

No decorrer deste projeto, que ainda continuará em funcionamento, vimos que a parceria com a CASA7, nos possibilitou enxergar alguns pontos que foram muito relevantes para mim. Como, que foi muito claro que precisávamos ter pegado mais firme com relação ao planejamento das atividades, mesmo elas estando prontas e serem exercícios simples a serem passados. Estas atividades devem ser planejadas, e bem descritas, passo-a-passo, pois assim iríamos nos prevenir quanto a imprevisto, por exemplo, de falta de material necessário para o desenvolvimento da atividade, o que gera desconforto para o educador e educando.

Além disso, iria propor um rodízio de educadores para as turmas, à medida que mudavam de disciplina. Pois as crianças teriam a oportunidade de ver o rodízio trazendo técnicas e estilos diferentes, pois cada educador tem seu estilo característico. Pois vemos que as crianças também pedem isto para terem contato com outros educadores e suas maneiras de desenvolvimento didático.

E como lidamos com crianças, quanto mais a atividade envolver movimentos, objetos (físicos, palpáveis), desafios, mais eles se animam e trazem a disciplina para o seu cotidiano. Vendo sua aplicabilidade saindo do papel para a prática. Vimos que quanto mais as formas de aprendizado se diferem da escola, abordagem do lúdico, e quanto mais meche com o lado sensitivo, criativo, cognitivo e movimento, mais o educando se interessa e aprende.

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