4. Em Cena Arte e Cidadania

 

Introdução (ou o início da conversa!)

Mieja Chang

A Em Cena Arte e Cidadania é uma organização que atua no bairro dos Coelhos, promovendo aulas de dança, música e humanidades para crianças e adolescentes. Tem sua metodologia de trabalho centrada nos três pilares da Arte Educação: (1) o aprendizado dos conceitos e técnicas da arte; (2) o fazer artístico com a experimentação, criação e interação com um público; e (3) a contextualização temática e/ou histórica, acrescido de encontros de humanidades e de atividades de fortalecimento dos laços familiares e comunitários.

Por que arte e arte-educação? As perspectivas críticas em educação e arte-educação apontam para a necessidade de se entender a educação como um processo de construção de criticidade e autonomia para o desenvolvimento de uma cidadania voltada para a transformação social.

A arte-educação assim entendida e, mais especificamente, a dança educação, aproxima-se dos trabalhos desenvolvidos por Ana Mae Barbosa (1998) e Isabel Marques (1997, 1999 e 2003), no sentido de estabelecer o ensino da arte na contemporaneidade a partir das teias de relações que vivemos, percebemos e imaginamos para nossa vida em sociedade. Ambas as autoras atuam inspiradas e balizadas pelas obras do educador Paulo Freire.

A organização existe há 14 anos e atualmente totaliza um grupo de sete educadores. No quadro da equipe, há o Coordenador Pedagógico que desenvolve múltiplas funções e, infelizmente, ainda não conseguimos implementar um Projeto de Formação de Educadores na instituição de forma planejada, com objetivos e fins claros.

As intervenções com os educadores vão acontecendo na medida em que há a necessidade de debater sobre algum tema específico. Reunimo-nos uma vez ao mês para discutir sobre alunos/as, problemas, planejamentos, visitas, enfim, sobre a funcionalidade da instituição. Quando necessário (embora acredite que sempre é!), é nestes encontros que se estuda algum texto. A ideia, neste momento, é buscar instrumentos para elaboração de um projeto que possa ser posto em prática no 1º semestre de 2013.

Em relação ao papel do Coordenador Pedagógico, acredito que está intimamente vinculado às tarefas pedagógicas da instituição, embora este conceito nem sempre corresponda à prática cotidiana. Estar preparado para ajudar os professores e deixar harmônicas as atividades presentes na instituição é uma das prioridades no desempenho da Coordenação Pedagógica. Não há intenção de julgar planejamentos ou didáticas, mas permitir que haja coerência na aplicabilidade dos conteúdos, inclusive norteando-os com a missão da organização que, no caso, é o eixo central para o desmembramento das atividades desenvolvidas.

Acredito que não há a necessidade de ter domínio sobre os diversos assuntos em questão (no meu caso, música e humanidades). Procurar incentivar os professores a avançar nos seus estudos e provocá-los, lançando desafios, também é um dos papeis da Coordenação.

Quando me refiro ao exercício de outras atividades que não são exatamente da função de Coordenação Pedagógica, é porque paralelamente há conversas e visitas com a família, rematrícula de alunos/as, observação e implementação do cardápio de lanche, distribuição de farda, entre outros. Não há como exercer uma única função.

O que seria ideal (o desejo) é o Coordenador Pedagógico poder exercer exclusivamente a sua função. Desta forma, focaria mais nos seus objetivos e intervenções, podendo ajudar mais as atividades dos/com professores. As múltiplas funções da Coordenação impedem, de certa forma, o tempo para seu estudo e pesquisa pessoal. Gostaria também de fazer com que os professores envolvidos tivessem formação continuada com mais frequência. E mais estímulo ao ato de ensinar. A sala de aula tem sido um local difícil! É desafiador fazer com que o grupo entenda que há sentido em tudo que você explica. Sem contar nas especificidades de cada turma. Isso cansa, é verdade. Manter o quadro de professores motivados e desejando mudanças significativas é um desafio ao Coordenador.

Linha do tempo, grandes marcos!

1998:

  • Fundação da Em Cena Arte e Cidadania.
  • Necessidade dos professores mergulharem no universo da comunidade dos Coelhos, percebendo as peculiaridades e organização social do bairro.

1999:

  • Introdução das aulas de balé clássico, música e cidadania.
  • Selecionar crianças e adolescentes para fazer parte do quadro de alunos da instituição.
  • Desmistificar a aula de dança para meninos, pois na comunidade isso é coisa de homossexual.
  • Ensinar na íntegra o balé clássico, inclusive com a mesma rigidez das escolas de formação em dança clássica.

2000:

  • Saída de Larissa Araújo e Denys Nevidomyy, professores formados no Balé de Kiev.
  • Busca de outros professores. Isso causou impactos na organização, em um momento em que se percebe que a ideia inicial sobre a formação em dança clássica para crianças e adolescentes poderia não ter continuidade. A contratação de novos professores causa estranhamento no grupo de alunos/as, pois surgem com outros métodos de ensino. Alguns professores se adaptaram, outros não. As vivências em dança dos novos profissionais são aceitas, entretanto, a ideia inicial da formação em dança clássica pelo método russo é mantida. Não houve um projeto de formação para essas novas pessoas. Em reuniões e observações das aulas aplicadas, iam-se pontuando alguns aspectos que poderiam ser melhores adaptados ao grupo, tais como: desenvolvimento da aula, metodologia, postura professor x aluno, método de ensino.
  • Início das aulas de dança contemporânea.
  • Com a entrada de outros profissionais, percebe-se a necessidade de investir em outra linguagem de dança sem perder as aulas de clássico. Reflexões são feitas sobre a rigidez imposta pela metodologia russa em um corpo brasileiro, em relação ao tipo de estrutura corporal. Houve também debates sobre a importância de haver a dança contemporânea nas aulas, pois este tipo de dança permite que o indivíduo crie, ouse, se perceba enquanto sujeito participante da dança e não meramente um executor de passos. As aulas de dança contemporânea ainda são tímidas, ocorrendo em intervalos espaçados, a critério do professor.

2001 e 2002:

  • Dois espetáculos de dança: um realizado pelas novas professoras (três cenas) e outro com subvenção do Governo do Estado que permitiu contratar uma coreógrafa atuante na cidade (“Na Mancha Ninguém me Pega”).
  • As professoras de dança se fortalecem após a Em Cena Arte e Cidadania iniciar a sua trajetória artística no cenário local. A partir desse momento, a organização deu um salto qualitativo em relação à produção artística, que nos levou a diversificar a linguagem da dança e, consequentemente, das outras áreas artísticas trabalhadas pela instituição.
  • Investigações e estudos são sempre frequentes, melhorando a qualidade técnica tanto das aulas, quanto dos espetáculos.
  • Oportunidade de estar envolvida com Maria Paula Costa Rêgo, coreógrafa convidada para fazer o espetáculo “Na Mancha Ninguém me Pega”. Observar o seu processo de criação e a forma como se pode trabalhar a dança contemporânea com crianças e adolescentes foi um benefício para a aprendizagem dos professores da instituição.

2006:

  • Criação do Coro da Em Cena Arte e Cidadania.
  • A música começa a buscar o seu espaço na cidade e necessita de um olhar mais apurado dos professores em relação à qualidade e ao tratamento da voz. A equipe de música direciona o seu foco não só para o ensino preliminar, mas também para a preparação de crianças e adolescentes coristas.

2007 a 2010:

  • Entrada de Regina, que consegue aproximar a instituição da comunidade, realizando a Terapia Comunitária com a família. Deste trabalho resulta a criação do grupo Mãos Voluntárias da Comunidade.
  • Sua forma freireana de atuar e de ver o mundo interfere, de certo modo, na prática educativa. As colocações sobre o contexto social no qual a instituição está inserida, as abordagens com as crianças, adolescentes e família sempre nos deram instrumentos para melhorar e avançar na relação professor/aluno, Em Cena/comunidade, Em Cena/família. Infelizmente Regina mudou de cidade e não faz mais parte da nossa organização. A sua saída deixou uma lacuna, pois não conseguimos ainda contratar um profissional que realize tão bem o trabalho desenvolvido por ela.


2008 a 2010:

  • O projeto de teatro “Agora Eu Sei!” com Érika.
  • Este projeto tem como alvo a sexualidade e permitiu aos jovens envolvidos criarem peças de teatro para apresentações em espaços públicos e educacionais, além de criarem dinâmicas para aplicação dos conteúdos em debates com outros jovens.

2009:

  • Entrada da professora de dança Valéria Medeiros. Neste momento se fortalece a prática da dança contemporânea na Em Cena. Com um histórico em dança clássica e dança contemporânea, Lela (como é carinhosamente chamada) propõe cada vez mais pesquisas corporais em dança. Não há discordância com nenhum membro da equipe.
  • Junto à Mieja Chang, assumem a criação do novo espetáculo: “Amanhã é depois! Hoje é brinquedo!”.
  • O processo de criação demandou muitas pesquisas de movimento e, como em qualquer outro momento de criação da Em Cena, deixou a instituição muito envolvida com a montagem desse novo trabalho.  Este trabalho circulou até Agosto de 2012.

2010:

  • Criação da Cantata de Natal.
  • Resultou em um produto artístico que agregou música e dança e, portanto, envolveu os professores destas duas linguagens.
  • Por ser uma experiência nova tanto para professores quanto para alunos/as, deixou a equipe motivada com o resultado e avanços conquistados.
  • A cantata aconteceu em 2010, 2011 e acontecerá também em 2012.

2012:

  • Participação no Programa de Fortalecimento do FICAS, CASA7 e Instituto C&A.
  • Acreditamos que, a partir deste momento, avançaremos em várias questões da organização. A equipe está feliz, estudando, abrindo novos horizontes, debatendo, refletindo de maneira positiva sobre essa formação.

Projeto de Formação

Nossa equipe pedagógica contabiliza sete educadores, com diferentes tipos de formação acadêmica. A grande maioria tem curso em Pedagogia ou Licenciatura, direcionando sua prática para a esfera educacional. Outros possuem formação em área totalmente distinta e, sem nenhuma dúvida, são muito competentes e responsáveis sem a devida titulação para sala de aula, nos fazendo acreditar que os títulos recebidos pelas Universidades/Faculdades contribuem bastante para a prática profissional, mas nem sempre garantem qualidade nas ações.

Somos uma ONG que faz intervenção artística, social e cidadã no bairro dos Coelhos, região central da cidade, uma das áreas mais vulneráveis do município do Recife. Essa parte da cidade é a que apresenta o mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, reúne a maior proporção de domicílios pobres e maior índice de desnível série X idade, apesar de estar rodeado de escolas.

Entender esse contexto social é a prioridade para estar atuando profissionalmente na Em Cena Arte e Cidadania. Na nossa equipe, contamos com duas professoras e uma educadora de apoio que são da comunidade e isso faz realmente um diferencial quando queremos entender alguns aspectos, como por exemplo: organização da comunidade, famílias, tráfico de drogas, violência, entre outros aspectos.

O Projeto de Formação é construído a partir desse momento de reflexão e contribuição com o Ficas, Instituto C&A e a CASA7. Antes não havíamos registrado um documento sobre a formação de educadores de maneira complexa. Na nossa prática diária vamos norteando as ações artísticas e pedagógicas, lendo e discutindo textos, socializando saberes, estratégias de atuação em sala, sem seguir com um planejamento específico. Compreendemos a necessidade de obter esse documento a partir do momento atual, pois acreditamos que a organização vai se fortalecer internamente.

No entanto, antes de chegar a este projeto, gostaria de relevar o nosso posicionamento quanto ao conceito de FORMAÇÃO. Para nós da organização, acreditamos que esses projetos contribuem para o crescimento da prática pessoal, levantando problematizações, norteando e atualizando alguns caminhos, mas não chega a formar ninguém, apenas a contribuir. Seria um tanto pretensioso dizer que, ao final dos nossos encontros pedagógicos, formamos o professor. A formação nunca chega ao fim, nunca cessa, pois o conhecimento não é estático, é sempre dinâmico. Desta forma, o projeto de formação para nós pode ser entendido mais como uma contribuição acerca do conhecimento do que uma formação no sentido epistemológico da palavra.

 Nossa equipe

Equipe

Função
Amilca Aniceto Professora de música
Betânia Gonçalves da Silva Coordenadora de Desenvolvimento
Juliana Gueiros Educadora de sexualidade e drogas
Ketully Leal Professora de dança
Mieja Chang Professora de dança e coreógrafa
Valéria Medeiros Professora de dança e coreógrafa
Maria do Carmo Professora de Humanidades
Maria do Carmo Rodrigues Educadora de Apoio

 

Objetivos e metas

O projeto tem por objetivo geral contribuir para o fortalecimento da atuação dos professores nas suas atividades de planejamento, execução, monitoramento e avaliação. No entanto, indo mais além, sabemos que não basta apenas cumprir com as questões meramente técnicas. Precisamos fazer com que toda a equipe entenda a educação em um contexto mais amplo, ultrapassando a fronteira dos conhecimentos específicos. É pertinente compreender a realidade social dos nossos alunos, respeitar os ritmos individuais e a diversidade existente, além de perceber como essas fragilidades reverberam na vida deles. Há a necessidade de estar sempre fomentando um pensamento crítico em todas as esferas que dizem respeito à vida sociocultural e cidadã e, por estas questões, não devemos amarrar nossas atenções somente aos procedimentos de sala de aula. Acredito que a meta é instigar os professores a ir além e que, por extensão, a nossa prática artística, educacional e cidadã reflita na família e na comunidade.

Expectativas de aprendizagem no trabalho com educadores

  • Sejam capazes de repassar o conhecimento específico de maneira lúdica, responsável e comprometida com @s alun@s.
  • Planejem suas atividades e conteúdos específicos dentro do contexto da instituição.
  • Tenham conhecimento das fases do desenvolvimento da criança/adolescente para que haja coerência e pertinência nos objetivos propostos.
  • Desenvolvam materiais didáticos próprios com o perfil da instituição.
  • Analisem materiais didáticos adquiridos no mercado à luz das filosofias de trabalho da instituição.
  • Transformem o dia-a-dia de suas salas de aula em objeto de pesquisa e reflexão constante.
  • Saibam acessar fontes de conhecimento (pessoas, livros, DVDs etc.) da sua disciplina para manter-se atualizado/a.
  • A se reconhecerem como sujeitos de transformação da realidade e da criação de uma vida com qualidade para si e para os outros.

Expectativas de aprendizagem no trabalho com crianças e jovens

  • Adquiram conhecimento técnico das linguagens artísticas desenvolvidas na organização.
  • Saibam ler e escrever (sejam letrados).
  • Possam agradecer o que tem (bens materiais, suas famílias etc.) de forma crítica, ou seja, percebendo o que deve ser mudado/desenvolvido/implementado para que tenham uma vida com mais dignidade.
  • Consigam acessar (sem que essas fontes se tornem donas da verdade) informação de diversas fontes: TV, livro, computador, revista etc.
  • Sintam-se como membros da Em Cena Arte e Cidadania (tenham um sentimento de pertencimento a alguma coisa e que não estão sozinhos/as no mundo).
  • Consigam aprender com o passado, viver bem o presente e imaginar o futuro.

Conteúdos de formação

  • Desenvolvimento e aprendizagem em Piaget, noções da pedagogia Waldorf: três primeiros setênios (teoria e exemplos práticos).
  • Atividades lúdicas na educação da criança.
  • O adolescente – seus conflitos e suas capacidades produtivas e criativas.
  • A realidade social das nossas crianças e as formas possíveis de intervenção.
  • Como lidar com a diversidade dos alunos/as.
  • Como utilizar os recursos tecnológicos em sala de aula.
  • Planejamento e organização do ensino.
  • Avaliação: por que; para que e para quem.

Etapas de desenvolvimento

As pautas de formação presentes nesse projeto são extensas e abrangentes. Por isso, para ser colocada em prática, ela obedecerá à seguinte pré-etapa:

1-      Reflexão sobre a missão, visão de futuro e valores da Em Cena Arte e Cidadania.

2-      Baseado nas reflexões sobre o tema acima, estudaremos que tópicos desse projeto de formação devem ser trabalhados primeiro. Os educadores em conjunto vão analisar os tópicos propostos e vão definir a ordem que eles devem ser trabalhados dentro da instituição. Essa definição será feita em grupos de educadores que, ao fazerem suas propostas, devem defender suas ideias. Assim podemos já fazer uma análise das necessidades apontadas pela coordenação pedagógica sob o ponto de vista dos educadores. Além de escolherem os tópicos entre os sugeridos nessa proposta, eles poderão sugerir outros tópicos, a serem inseridos ou guardados para outro momento.

3-      Após a fase de definição, vamos juntos definir em quais temas temos expertise na própria equipe. Ou seja, para quais desses tópicos somos capazes de fazer estudos e discussões entre nós mesmos (e por nós mesmos) e para quais tópicos será necessário convidar pessoas para apresentar o assunto, fazer dinâmicas, orientar, facilitar uma roda de diálogo etc. Após esse levantamento, será feito um calendário e definido quais educadores ficarão responsáveis pelas intervenções e/ou convidar um especialista na área desejada.

4-      As ações propostas devem sempre ser analisadas à luz de nossa prática e da realidade em que atuamos.

5-      As atividades obedecerão ao calendário proposto com a finalização de um processo de avaliação.

Tempo de duração

A aplicabilidade dos conteúdos iniciará em fevereiro e terminará em dezembro, com pausa no mês de julho (recesso). Nossos estudos deverão acontecer uma vez ao mês, durante toda a tarde, e não haverá atividades para as crianças e adolescentes neste dia. Acreditamos que durante este tempo, o professor será capaz de assimilar e adquirir conhecimento de forma mais consistente, buscando no seu processo de ensino o tripé ação-reflexão-ação.

Material

Sala com cadeiras e mesas, papel, canetas, som, televisão. Os textos que serão utilizados para estudo se aplicarão de acordo com: 1) a necessidade dos professores; 2) a ideia de provocar e autoavaliar a prática pedagógica; 3) que contribuam de alguma forma com o crescimento pessoal da equipe.

Avaliação

A avaliação do projeto estará baseada e direcionada para o professor e sua atuação em sala de aula. Após a intervenção do Coordenador Pedagógico com estudos, reflexões e problematizações, a ideia é poder identificar os aspectos de crescimento da equipe. Este processo se dará através da observação dos professores nos seguintes aspectos: 1) compromisso e respeito com os alunos; 2) compromisso na entrega do material de planejamentos mensais e tarefas; 3) atuação na sala de aula, buscando novas dinâmicas e criatividade; 4) assimilação dos conteúdos estudados; 5) autoavaliação e avaliação do Coordenador Pedagógico.

Nesta autoavaliação, algumas perguntas poderão nortear o professor, quais sejam:

  • Que diferenças você percebeu na sua prática cotidiana?
  • Onde percebeu que sua prática apresentou mudanças mais significativas?
  • Qual dificuldade pessoal encontrou para realizar determinadas tarefas?
  • Acredita que apresentou domínio entre o objeto de estudo (teoria) e a prática?
  • Dê sugestões para melhorar os aspectos menos positivos.

Registro de sala de aula

Professora: Mieja Chang

Turma: C (10 e 11 anos)

Local: sala de dança da Em Cena Arte e Cidadania

Número de crianças presentes: 11

Este registro refere-se à aula de dança ocorrida no dia 25 de setembro de 2012.

As crianças chegaram à sala de aula bem agitadas, pois na semana passada tivemos a surpresa da entrada de um menino (sexo masculino) nesta turma e como isso ainda é raro, causa uma agitação geral. É o primeiro menino a entrar nesta turma e é fruto de uma campanha que iniciamos na comunidade para buscar bailarinos.

Peço silêncio, tento organizar as crianças nos seus lugares para dar início à aula. Após conversar um pouco, inicio os exercícios. A primeira parte da aula é no chão, onde são praticados exercícios de fortalecimento muscular e alongamento.

Reclamo que já vi aulas melhores, que não estão esticando as pernas e peço para realizarem melhor o exercício. Questiono: “Como vão passar para a próxima turma se não sabem esticar as pernas direito? Como vão para o palco?”. Nesse momento, há um silêncio. Parece que a frase dá efeito, nem que seja por alguns instantes. Os elogios também são bem vindos. Elogio mesmo quando estão mais ou menos. Ninguém aguenta viver na reclamação! Muito menos em aulas de balé clássico! Muito menos com crianças!  Desta forma, falo “muito bem!” e “melhorou bastante!” para o grupo, após a bronca dada anteriormente.

Na parte da barra, segue o que já está planejado para o dia. Algumas meninas tiram a sapatilha, dizem que não gostam. Falo que o pé vai se acostumar e que a sapatilha faz parte do uniforme da bailarina. Colocam de volta no pé, mesmo sem querer.

Algumas alunas me pareceram bem concentradas, outras mostram um olhar distante… Preciso dar uma entonação diferente na minha voz para cada momento, pois acredito que isso influencia no andamento da aula. Elas acordam. Voltam ao foco, que no caso, sou eu, a música, a sequência de passos. Chegam cansadas da escola…

Erick (novato) não fez a parte da barra, fez só o chão. Disse que “não faz isso não!”. Preferi deixar ele se sentar, até se acostumar com a aula, quebrar a vergonha e o preconceito. Sem problemas. Essa é a primeira aula dele comigo. Preciso conhecer a família, saber se ele gosta daqui, o que ele quer fazer e o que a família espera de nós. O grupo não demonstrou nenhuma indignação quanto à minha atitude. Continuaram a realizar o que lhes era pedido, o que me leva a refletir sobre o respeito aos limites do outro. As meninas entenderam que é difícil (ou estranho?) para Erick, pois também é para elas mesmas! Se eu, professora, olhar para esses mínimos detalhes, essas pequenas atitudes, acredito que estaremos construindo algo de muito positivo no grupo.

Na aula de hoje não consegui dar a parte do centro. Pela excitação das meninas. Que alvoroço danado!

Pedi para que se organizassem para sair. Colocaram seus sapatos e foram, em fila, para a aula de música.

Síntese (ou o final da conversa!)

A síntese aqui exposta refere-se à construção do Projeto de Formação de Educadores, bem como à ideia de implementá-lo neste ano de 2013. Conforme já explicitado no decorrer das tarefas, a Em Cena Arte e Cidadania ainda não tem um projeto que foque exclusivamente o professor. Nossos encontros mensais ocorrem de maneira informal, onde são discutidas algumas particularidades das crianças atendidas, mudanças de horário, atividades, enfim, assuntos que dizem respeito ao bom funcionamento da organização. Assim sendo, o primeiro passo foi construir o Projeto de Formação.

Com o projeto em mãos, o momento agora é saber como introduzir o Projeto de Formação Permanente na organização e se há espaço para isso. De acordo com Betânia Gonçalves (coordenadora de desenvolvimento), há espaço e interesse, no entanto, há também a necessidade de se criar uma cultura de estudo no local do trabalho, pois, segundo ela, a maioria das pessoas demonstra certa falta de energia para fazer isso no local de trabalho. Diz ela: “a minha sensação é que antes de começarmos (o projeto) propriamente dito é preciso ler as propostas com todo mundo e criar uma nova cultura, que é o estudo coletivo no local de trabalho”. 

Durante a sua fala, percebe-se que há consciência da importância do projeto na organização, melhorando a qualidade do trabalho desenvolvido com as crianças e adolescentes, além do melhor entendimento das particularidades e necessidades de cada disciplina. Mas sente também o receio de que as pessoas envolvidas na organização coloquem esse espaço para estudo em segundo plano no grau de importância no trabalho e com isso gere um desconforto para quem esteja conduzindo o Projeto.

E agora?

Acredito que o momento seja o de conversar com toda a equipe e perceber a importância dos encontros pedagógicos para a organização. Analisar os ganhos em termos de conhecimento e amadurecimento profissional. A minha recomendação é refletir! Pois a reflexão resulta em aprendizagem, que sugere novas propostas, novos horizontes, ampliando o nosso olhar.

Ainda há muito que aprender. E a errar também, pois os erros são fundamentais para o nosso crescimento. Ainda não sei se vamos conseguir ter o Projeto de Formação neste 1º semestre de 2013. Mas as portas se abriram e a felicidade nunca bate em portas fechadas!

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