5. Fundação Fé e Alegria Brasil – Unidade Pernambuco

DESCRIÇÃO DA PRÁTICA: FORMAÇÃO PEDAGÓGICA

Geize Araújo e Marianna Rocha

 

Contexto da organização

A Fundação Fé e Alegria (FyA) surgiu no estado de Pernambuco em 2008, em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco, com o propósito de articular o desenvolvimento de ações que pudessem cambiar os princípios e aprendizagens dos processos de educação formal superior e as concepções da educação não formal e popular. Hoje essa parceria é traduzida pelos frutos colhidos através dos resultados alcançados pelos usuários e suas famílias que são atendidos direta e indiretamente nas ações do FyA, com a ampliação do universo intelectual, profissional, informacional, cultural, sociais e afetivo. Diante desse contexto, compreendemos que as atividades do processo de formação pedagógica, iniciadas em fevereiro de 2008, sempre contribuíram para a sustentabilidade de todas as ações propostas no Projeto Amigos do Saber, na medida em que possibilitam à nossa equipe o fortalecimento da formação inicial, continuada e permanente dos educadores sociais envolvidos nas ações.

Grandes marcos no processo de formação de educadores / Linha do tempo

  • Jan 2008: Composição da Equipe Multidisciplinar do FyA e início das atividades do projeto.
  • Fev 2008: Início do processo de formação inicial e continuada.
  • Mar 2008: Implementação das atividades do Projeto Amigos do Saber em Pernambuco.
  • 2009: Ampliação da estrutura física da sede.
  • 2010: Ampliação no quadro de funcionários.
  • Abr/Mai 2011: Introdução de temáticas atreladas à Educação em Valores (autoestima, autoimagem, autoconceito, identidade, visão destemida do futuro, projeto de vida).
  • Jul/Ago 2011: Institucionalização da Equipe Gestora.
  • Jan 2012: Contratação dos Educadores Sociais.
  • Ago 2012: Composição do Conselho Pedagógico.

Papel do coordenador pedagógico

O Coordenador Pedagógico é o responsável pelo processo de formação dos educadores. Pauta o seu trabalho na observação de tudo o que acontece no espaço educativo e na busca pela conquista da equipe de trabalho, desmistificando a ideia de que o pedagogo só está ali para chamar sua atenção e atrapalhar o seu trabalho – legado oriundo da rigidez e descontextualização com as quais alguns coordenadores atuam, ignorando as experiências e as fragilidades vivenciadas pelos docentes. Contudo, as vivências de sala de aula, as dúvidas, os avanços, as conquistas representam elementos importantes para a troca de experiências nas formações, tornando-se um espaço composto por experiências ricas e construtivas para os agentes envolvidos.

Além de organizar os momentos de formação, de saber observar as reações, os anseios e valorizar o trabalho dos educadores, o coordenador pedagógico deve monitorar e avaliar a realização das atividades, apoiando a equipe e encorajando-os a irem além das expectativas, tendo com ferramenta a indicação de textos, artigos, filmes, livros que poderão auxiliá-los nesse processo de formação continuada e permanente.

Projeto de formação de educadores

Justificativa:

As atividades do processo de formação pedagógica contribuem para a sustentabilidade de todas as ações propostas no projeto, na medida em que possibilita o fortalecimento da formação inicial, continuada e permanente dos educadores sociais. A profissionalização do educador social é processual, enquanto ser íntegro, entusiasta, dinâmico, sensível, alinhado e comprometido com a missão e os princípios que orientam a proposta educativa da Fundação Fé e Alegria Brasil, em uma ação efetiva e eficaz, na dependência direta do desenvolvimento da competência humana, técnica e política. Os princípios pedagógicos em que Fé e Alegria fundamenta suas ações, originam-se da prática engajada que se concretizará a partir de importantes dimensões da pessoa do educador, apontando também a garantia da formação permanente dos seus docentes, para que possam responder às necessidades explicitadas pela proposta pedagógica que deseja transformar as diversas áreas de atuação: Educação Formal, Educação Não Formal, Desenvolvimento Comunitário, Formação de Educadores Populares, Comunicação e Ação Pública.

Assim, a proposta de formação pedagógica tem caráter de transformação a partir dos, pelos e com os educadores sociais, a partir da sua prática educativa, implicando necessariamente a opção por uma metodologia de trabalho que garanta o protagonismo dos sujeitos envolvidos, cabendo ao educador, desde logo, o papel daquele que faz a mediação, promove reflexões, desafia, provoca e apóia. Define-se, assim, um jeito peculiar de fazer, porque há uma finalidade especial a atender: a transformação, protagonizada pelos próprios sujeitos envolvidos. Este é o jeito de fazer da educação popular. As características dessa metodologia inscrevem-na em uma denominação generalista de metodologia da problematização. Seus pressupostos são amplamente reconhecidos nos fundamentos teóricos de Paulo Freire.

Assumir a metodologia da problematização na proposta de formação pedagógica a partir da prática dos educadores requer rigorosidade metódica (FREIRE, 1997), o que favorece o tratamento interdisciplinar dos conteúdos, com diversas formas (tratamento temático, área de conhecimento, projetos transdisciplinares), especialmente na educação popular, pois, sendo a realidade o seu ponto de partida, esta nunca se apresenta de forma (uni)disciplinar.

A pedagogia freireana só pode ter essa identidade se for capaz de se recriar em situações inéditas. Dependendo da área de atuação em que os educadores populares estejam inseridos, em determinados momentos algum dos passos que a constituem pode requerer maior ou menor ênfase. Igualmente, é recomendável lembrar que a metodologia da problematização é referida também como pedagogia problematizadora (Paulo Freire) e, sob este ponto de vista, pode ser vivenciada por meio de outras formas e estruturas didáticas além da apresentada anteriormente, como, por exemplo, a do desenvolvimento de projetos de formação pedagógica.

Caracterização dos educadores

A equipe de educadores do FyA é composta por trinta estagiários, estudantes de licenciatura, contratados nos moldes da Lei de Estágio nº 11.788, por onze meses, com carga horária de vinte horas semanais, sendo doze horas destinadas ao trabalho em sala de aula e nas bancas de estudo, e oito horas para o planejamento e pesquisa individual e em grupo. Além de seis educadores sociais, funcionários CLT da instituição, graduados e graduandos em licenciatura, também com carga horária de vinte horas semanas, atuam como educadores sociais nas ações e atividades socioeducativas, além de acompanhar e orientar os grupos de estagiários por áreas do conhecimento no desenvolvimento das suas práticas educativas. Além da equipe pedagógica que é composta pela coordenadora pedagógica e pelos responsáveis pelas ações desenvolvidas no projeto, pedagogas e um educador social. Completa a nossa equipe a assistente social, a psicóloga, o professor de língua estrangeira e informática, os instrutores de dança e música, o auxiliar de serviços gerais e a auxiliar administrativa.

Objetivos

Contribuir com o processo de formação inicial, continuada e permanente dos estagiários e educadores sociais, em prol da sustentabilidade das ações socioeducativas, a partir de uma abordagem dialógica. Proporcionar espaços que promovam o desenvolvimento da autonomia intelectual e profissional na perspectiva de uma prática voltada para a educação popular atrelada aos princípios da educação em valores, da justiça e transformação social.

Metas

  • Realização de treze encontros temáticos voltados para atividades socioeducativas que promovam o debate e a reflexão de conceitos relacionados com a práxis educativa e a educação em valores.
  • Acompanhamento sistemático das ações educativas, na perspectiva da evolução dos estagiários e educadores, no decorrer das atividades socioeducativas.

Conteúdos da formação

  • Competências vinculadas ao saber fazer, saber ser e saber conviver.
  • Identidade profissional – O papel do educador na sociedade.
  • Relações interpessoais – Educador/aluno e educador/educador.
  • Condição de ser humano consigo mesmo e na relação com os outros.
  • Autoestima, autoimagem e autoconceito.
  • Metodologia – conceitos e instrumentos.
  • Didática – conceito e ferramentas.
  • Planejamento.
  • Avaliação – conceito, estratégia e função.
  • Tematização a partir da prática – vivencias.

Etapas de desenvolvimento e tempo de duração

1º momento: Partilha das vivências da prática pedagógica- cerca de 30 min.

2º momento: Atividades e temas voltados para a educação em valores – aproximadamente 1h e 30min.

3º momento: Intervalo – cerca de 20 min.

4º momento: Tematização da prática educativa – aproximadamente 1h e 30min.

Observação: essa ordem não é estática, podendo ser alterada conforme as necessidades; contudo, é importante que cada etapa seja preservada.

Etapas do processo de tematização da prática educativa

1º encontro de formação (fevereiro):

  • Apresentação do grupo (formação e experiências profissionais).
  • Explanação geral sobre procedimentos metodológicos, planejamento, avaliação atrelados à prática educativa em Fé e Alegria (esses temas serão introduzidos e, ao longo do ano, abordados com mais detalhes).
  • O papel social do educador.

 2º encontro de formação (março):

  • Metodologia: conceitos e instrumentos.
  • Elaboração das fichas e planos de aula e de ensino.

3º encontro de formação (abril):

  • Planejamento da prática educativa.

4º encontro de formação (maio):

  • Didática – conceito, ferramentas e descrição dos recursos.

5º encontro de formação (junho):

  • Avaliação – conceito, estratégia e função.

6º encontro de formação (julho):

  • Atividades avaliativas sobre a prática educativa.

7º encontro de formação (agosto):

  • Ética profissional.

8º encontro de formação (setembro):

  • Ludicidade no desenvolvimento da prática educativa.

9º encontro de formação (outubro):

  • Processo de ensino e aprendizagem.

10º encontro de formação (novembro):

  • Perspectivas e planos para o futuro.

Materiais e recursos necessários

Um computador, um data show, uma caixa de som, um micro system, duas resmas de papel ofício, uma caixa de piloto para quadro branco, dois apagadores para quadro branco, dois grampeadores, duas caixas de grampos 26/6, duas caixas de clips, um extrator de grampos, um pen drive de 8GB, vinte cartolinas, duas fitas adesivas 4,8cm x 50m, três caixas de pinceis atômico, dois sacos de bexigas coloridas, dois rolos de barbante, um caderno de capa dura grande com 96 folhas, uma caixa de marcador de texto, uma caixa de canetas, dois blocos adesivo Post 76×102, cinco cartuchos de tinta para impressora preta, três cartuchos de tinta para impressora colorida, um perfurador de papel.

Avaliação

A formação pedagógica busca assumir a avaliação como sendo intrinsecamente ligada a um planejamento participativo, dialético e dialógico. É através dessa avaliação dialógica e formativa que os objetivos, estratégias e conteúdos são revistos, propiciando ao educador e ao próprio grupo envolvido elementos que os tornem mais conscientes, críticos e competentes em relação ao seu papel de agentes de mudança.

As ações são realizadas na perspectiva da criação de uma relação integralizadora, no sentido de garantir, proporcionar a articulação do desenvolvimento e formação global, nas diferentes formas de expressão na vida sociocomunitária dos participantes. O planejamento sistemático, realizado no início do ano e a cada unidade temática, nos ajudam a orientar e comandar o acompanhamento do desempenho na prática educativa. Buscamos identificar as necessidades de intervenção, trocamos informações sobre a atuação e evolução dos educadores nas reuniões das equipes, a fim de assegurar a qualidade do trabalho socioeducativo significativo, apoiado na reflexão e transformação da realidade educativa.

Utilizamos como instrumentos para a avaliação: os planejamentos e a programação das atividades; as fichas de frequência; elaboração do material docente (planos de ensino, aulas, fichas); participação em eventos acadêmicos; produção de materiais pedagógicos; fichas e sistematização das avaliações dos usuários sobre a prática dos educadores.

Etapas de desenvolvimento / Registros

A Formação Pedagógica que realizamos em agosto de 2012, abordou eixos temáticos que surgiram a partir dos resultados da avaliação que realizamos no final de julho de 2012 com os educadores, quando buscamos investigar se os temas abordados nas formações no primeiro semestre desse mesmo ano estavam contribuindo com o processo da prática educativa e os resultados foram satisfatórios. Solicitamos, ainda, que eles pudessem indicar os temas que necessitavam compreender mais e a lista produzida apresentava o tema “práticas inovadoras em sala de aula” como sendo um dos mais solicitados. Assim, convidamos a professora Marisa Sposito (Professora da Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP) para explanar alguns aspectos relevantes a esse tema.

A professora utilizou alguns recursos didáticos para fundamentar a sua fala, como a letra e a melodia da música “Esquadros”, interpretada por Adriana Calcanhoto, além de computador, data show, imagens e a leitura dessas imagens, para questioná-los, escutá-los e problematizar os argumentos, como estímulo para que o grupo participasse e interagisse a partir de suas dúvidas e experiências em sala de aula. Com esses elementos, Marisa refletiu com o grupo sobre o que eles falaram, remetendo há algumas metodologias e práticas que são usadas comumente em sala de aula, cultivando a construção do aprendizado por parte do aluno e, ao final da apresentação expositiva, foi aberto o debate para partilhar o que foi assimilado. Um dos educadores questionou sobre os meios para avaliar o conhecimento apreendido pelos usuários e a professora ressaltou a importância de um bom planejamento das atividades, para que os objetivos e resultados elencados possam ser os indicadores desse processo de construção do conhecimento.

Dias após essa formação, solicitamos que dois educadores do FyA registrassem suas prática educativas para que pudéssemos acompanhar e compreender como os temas abordados na formação repercutiram no cotidiano da equipe e em suas práticas. Um deles é o Paulo Cardoso, educador de linguagem que ministra aulas de produção e interpretação de texto para alunos do curso pré-acadêmico, usuários que irão fazer o ENEM e os vestibulares das universidades do estado. Em seu registro, ele destaca que para alcançar o objetivo de analisar as estratégias de argumentação utilizou o vídeo “A história das coisas”, que tem o consumismo como temática principal. Destacou ainda que percebeu, durante a exibição do vídeo, que a maioria dos alunos se interessava pelo tema proposto, contudo mencionou: “percebi desinteresse por partes de alguns (externadas com sono, desatenção e conversas paralelas) e acredito que essa postura tenha relação ao conteúdo hermético do vídeo, além do cansaço habitual apresentado nas aulas dos últimos horários”.

O registro nos remete à compreensão da importância de refletirmos bem antes de escolher o tipo de recurso a ser utilizado e a linguagem abordada para que os objetivos sejam alcançados. Os recursos audiovisuais são um dos mais utilizados porque aguçam os nossos sentidos de captação, auxiliando na aquisição de conhecimentos e apreensão de informações, a audição e a visão. Contudo, quando o conteúdo ou a linguagem não são adequados ao público que queremos alcançar, o sentido da sua utilização desaparece. Assim, vale a pena procurar outros recursos e meios que favoreçam o alcance dessa compreensão dos conteúdos.

 O educador Ednaldo Menezes fez o registro da sua prática no mesmo contexto, espaço físico e público que o registro do Paulo, contudo abordou os temas “Karl Marx” e “Agrupamentos Sociais”, por ser ele o responsável pelas disciplinas de filosofia e sociologia. Mencionou em seu registro: “O desenvolvimento da proposta da aula de Karl Marx deu-se pela exposição teórica do tema, com o apoio de alguns recursos didático-pedagógicos, tais como pincel, quadro, data show, notebook e ficha de apoio”.

Existem inúmeros meios e recursos que podem ser utilizados nas aulas, com resultados comprovadamente positivos como aponta RONCA & ESCOBAR, 1984. Contudo, é perceptível que alguns professores têm uma tendência a adotar métodos mais tradicionais de ensino, por receio de inovar ou por não abstrair o seu fazer com elementos inovadores. O relato do Ednaldo descreve os recursos básicos que normalmente são utilizados em aulas expositivas, contudo não se desfaz o mérito nem o fato de que aulas assim também alcancem seus objetivos. Contudo, o processo de ensino-aprendizagem deve ser motivador e estimulante, cabendo ao educador facilitar a construção do processo de formação, estimulando no aluno a curiosidade, o desejo pela aprendizagem e pelo conhecimento.

Dessa forma, compreendemos que o tema “práticas inovadoras em sala de aula”, abordado na formação, deverá estar presente nos próximos encontros, para que possamos ampliar ainda mais os saberes sobre a utilização desses recursos.

Conteúdos de aprendizagem

O processo de elaboração da síntese, acrescida das discussões e aprendizagens construídas ao longo do processo das Oficinas de Sistematização promovidas pela CASA7, nos permitiu alcançar algumas proposições para o aprimoramento das ações de formação continuada dos educadores do FyA. Ansiamos para que essas aprendizagens possam contribuir para o desenvolvimento profissional e emocional da nossa equipe e daqueles que venham a ter acesso a esse material, na perspectiva de vislumbrar os educadores como sujeitos ativos, capazes de assumir o papel de especialistas em processos de ensino-aprendizagem, profundamente compromissados com as pessoas que se encontram sob seus cuidados nos espaços educativos. Nesse sentido, a função da Formação Continuada não é nem a de centrar-se apenas no domínio dos conteúdos, nem a de focar apenas as características pessoais dos docentes. É preciso ter outras metas interligadas: acentuar as atitudes positivas dos educadores diante de sua profissão, o espaço onde atuam, o público atendido e suas famílias, ampliando sua consciência ética; revitalizar a luta por melhorias na situação de trabalho, dando ênfase a um maior envolvimento político; e, ainda, estabelecer novos padrões relacionais com a Equipe Gestora, com seus pares e com a comunidade, para que a gestão democrática possa se tornar uma realidade.

Assim, ponderamos que a Formação Continuada deve ter uma proposta clara de ação, para que não seja vista de forma compensatória. Ela deve ser prospectiva e fazer com que o educador ganhe em autonomia e reflita, inclusive, para opinar em que aspectos e de que modo precisa aprimorar-se. É preciso desenvolver planos de ação pública que formem e fortaleçam, em conjunto, o grupo e a equipe gestora, além de atuar em rede com outros seguimentos do setor e a própria comunidade, através da mobilização popular. E também entrar em contato com os novos conhecimentos do campo educacional e social, trazendo o debate acadêmico, científico para o interior dos centros educativos, investindo na socialização de experiências de sucesso sobre formação continuada e práticas educativas. Sem esquecer a contribuição para ampliar o universo cultural dos educadores, o tempo dedicado às ações de formação e incentivando e apoiando novas práticas educacionais, submetendo-as ao debate crítico no âmbito das redes.

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