6. Instituto Pombas Urbanas

Participaram da formação CASA7 três representantes do Instituto que optaram por registrar uma única prática por consideraram de grande relevância para a organização e para o seu aprendizado como educadores.

Projeto “Canto das Letras”
Luara Sanches 
Natali Santos
Rodrigo Arrais
 

O Projeto “Canto das Letras” desenvolvido pelo Instituto Pombas Urbanas tem por objetivo principal criar relações de cooperação entre jovens, adolescentes e crianças do bairro para que possam vivenciar um processo de aprendizado coletivo e humanizador com a promoção da leitura e da escrita por meio da prática artística. Nasceu a partir da percepção de que muitas crianças que frequentavam o Instituto apresentavam dificuldades de leitura e escrita. Para reverter esta situação, o projeto desenvolve ações como as turmas de “Letramento com Arte”, um processo educativo integrado com vivências artísticas com crianças de 3ª e 4ª séries do bairro, os “Fuxiqueiros”, um coletivo de jovens capacitados como agentes de leitura que montam espetáculos teatrais baseados em histórias de livros infantis que são apresentados no Centro Cultural e em escolas parceiras. As apresentações beneficiam por mês cerca de 160 crianças moradoras do bairro Cidade Tiradentes. Dentro do projeto são oferecidos cursos de circo e teatro com objetivo de incentivo à leitura e escrita.

Em 2011, além das turmas de circo e teatro, através de parceria com a EMEF Maurício Goulart iniciamos um processo de letramento com arte com crianças que faziam parte do PIC (Projeto Intensivo no Ciclo I). Periodicamente, são realizadas atividades de integração entre essas turmas. No início do primeiro semestre de 2011 estava previsto no projeto a realização de um passeio. Dentro das reuniões pedagógicas a equipe discutia qual local seria visitado; tínhamos três propostas: o Aquário Municipal de Santos, a cidade de Paranapiacaba e o Parque do Carmo. Houve uma ampla discussão sobre qual destas propostas seria a mais viável. Os educadores se dividiam; alguns acreditavam que a proposta do Aquário ou de Paranapiacaba seria de difícil realização, visto a distância e quantidade de educandos. Defendiam a ideia de que eles estavam mais familiarizados ao Parque do Carmo (região próxima a Cidade Tiradentes), o que evitaria maiores alterações de comportamento. Outros educadores, no entanto, acreditavam na relação de confiança e no marco que seria aos educandos a visita a um lugar que lhes era completamente novo. Após diversas reuniões, definiu-se como destino o Aquário Municipal de Santos.

A partir daí, iniciamos um processo de produção para o passeio. Ligamos no Aquário para agendar a visita, conversamos com os familiares sobre a proposta, confeccionamos as autorizações, os crachás, etc.

Antes de sair da instituição, fizemos uma atividade com os educandos solicitando a eles que desenhassem o que esperavam ver no Aquário. A grande maioria nunca tinha ido a uma cidade litorânea. Em muitos desenhos, saiam imagens de tubarões, peixes e até baleias.

Fizemos também brincadeiras em roda, propostas pelo pedagogo que trabalhava conosco. Durante estes exercícios, era visível nas crianças o entusiasmo para o passeio.

No ônibus havia um ar de euforia, nós, educadores, também estávamos ansiosos para conhecer o local. Antes de chegar à Baixada Santista, pudemos ver também outras paisagens durante o percurso. Dentro do ônibus fizemos gincanas. Aproximando-se do Aquário, já se podia avistar o mar. Nesse momento, todos correram para a janela que dava preferência à vista, perguntando aos educadores se iriam entrar no mar.

No Aquário fomos recebidos por um monitor que nos falou sobre os animais marinhos, seus comportamentos, alimentação, etc. As crianças reagiam com interesse a todas as informações. A curiosidade era imensa. Tentavam ler os nomes científicos, apontavam para determinadas características que percebiam e comentavam tudo de forma muito entusiasmada. Na saída do Aquário, fomos para areia fazer um piquenique e uma pergunta ainda ecoava: “Vamos entrar na água?”. Tivemos uma pequena situação de conflito, pois os professores da EMEF não estavam de acordo com a ideia das crianças entrarem na água. Tentamos dialogar, porém disseram que, caso as crianças entrassem, a responsabilidade seria nossa.

Os educadores da instituição dialogaram a parte e rapidamente construímos uma estratégia para levar as crianças ao mar. Fizemos uma corrente humana e saímos em frente a elas, que estavam sendo observadas por outros educadores. A ideia inicial era de apenas molhar os pés, mas a empolgação e a relação estabelecida entre educadores e educandos permitiram que as crianças pudessem mergulhar em busca de conchas. Para a nossa surpresa, alguns já estavam com roupas de banho.

Era visível no olhar e no corpo de cada educando a felicidade e a alegria dentro d’água. Ficamos lá um bom tempo até que chegar o horário de retornar à instituição. Na volta, estávamos exaustos, com areia no corpo, roupas molhadas, e contentes pelo dia. Muitos educandos nunca tinham entrado no mar e isso fez com que fosse um momento muito especial para nós. Refletimos e lembramo-nos das reuniões e discussões nas quais alguns educadores se opunham a proposta de visitar o Aquário.

Além de reflexões discutimos sobre a importância da sensibilidade e flexibilidade do educador em determinadas situações, pois, facilmente, naquele dia poderíamos optar em não autorizar os educandos a entrar no mar – até porque não havíamos planejado -, porém a relação de confiança entre nós e os educandos se mostrou mais forte.

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