7. Centro para Crianças e Adolescentes Vila Itaim (SEPAS)

Participaram do processo formativo duas representantes do SEPAS, ambas assistentes técnicas: Elaine Cristina de Souza e Maria Jaqueline dos Santos. Cada uma delas registrou uma prática, descrita separadamente abaixo.

7.1. Centro para Crianças e Adolescentes Vila Itaim

Maria Jaqueline Santos

O CCA Vila Itaim está locado nas dependências da Paróquia São José Operário, situada na Rua Salinas de Mossoró – Vila Itaim – Jd. Romano, Distrito: Jd. Helena. Este núcleo pertence à Sociedade de Ensino Profissionalizante e de Assistência Social – SEPAS, uma organização social sem fins lucrativos fundada em 08 de dezembro de 1968 com o objetivo de atender a juventude da região, através de cursos profissionalizantes, e contando com a ajuda de voluntários. Em 29 de Dezembro de 1983 foi lavrado o primeiro termo de convênio com a Prefeitura Municipal de São Paulo.

Atualmente o CCA Vila Itaim aplica a metodologia de projetos, pensados a partir de conhecimentos e experiências da realidade local, visando a produção de mudanças significativas junto ao seu público, e promovendo a convivência e a participação social das crianças, adolescentes, suas famílias e membros nos processos de aprendizagem. Os projetos propiciam a construção de conhecimento mediada pela ação, estimulando o processo de aprender fazendo.

Serão apresentados aqui os registros da prática desenvolvida em um dos projetos da organização no período de abril a setembro de 2012, período correspondente às oficinas CASA7. As atividades foram realizadas pela educadora Adriana, com a minha participação em alguns momentos. As demais informações sobre o andamento das atividades derivam de rodas de conversa realizadas por mim com as crianças.

Projeto Meu bairro, Minha história

Objetivos

  • Cartografar os lugares por onde as crianças passam, bem como os relacionamentos, interesses e sentimentos a eles associados.
  • Estimular a percepção das crianças sobre o quanto as suas vidas estão implicadas com a vida do bairro.
  • Motivar o grupo a melhorar algum aspecto do bairro por meio de uma intervenção direta.

Público, tempo e temas

Este projeto foi desenvolvido com as crianças da “sala 1”, que apresentam idade entre 6 e 11 anos, em três meses. Além disto, foi subdividido em três subtemas, listados abaixo. O desenvolvimento das atividades está a seguir organizado, segundo os mesmos temas.

  1. Meu bairro, minha história
  2. Recreação na Vila Itaim
  3. Meu bairro tem História

Desenvolvimento

A. Meu bairro, minha história

a)     Entrevista com moradores mais antigos do bairro

Primeiramente as crianças foram questionadas sobre o que elas queriam descobrir do bairro:

Qual o caminho que você realiza para chegar até o CCA?  O que tem de interessante neste caminho? O que você vê todos os dias neste caminho?

Após alguns minutos pensando, o primeiro a se manifestar foi Guilherme, dizendo que havia se mudado e que agora estava fazendo um novo caminho, bem diferente do caminho que fazia quando morava na Rua Abacatuaja, pois agora via pessoas novas que ele ainda não conhecia, que passava pelo Hipermercado Sonda, pela estação de trem do Jardim Romano, e a lojinha da “vozinha” para comprar coxinha de frango. O menino observou que o Hipermercado é muito maior que a padaria do Chico (minimercado do bairro), que tem maiores variedades e quantidade de mercadorias, tem mais funcionários e descobriu que algumas pessoas que eram seus vizinhos trabalhavam lá. Marcou como interessante a praça do ponto de ônibus que fica atrás da estação de trem, afirmando ser um bom lugar para brincar.

Gabriel falou que faz o caminho passando pela casa de Wesley, Beatriz e Lucas, pois assim vem acompanhado pelos colegas, passando pelos tubos do córrego, a rua das plantas de espinhos, identificadas por ele como plantas do norte (que na realidade são Palmas), observou que nesta rua tem muito cachorro.

Os colegas ressaltaram que duas ruas utilizadas deste trajeto se encontram em reformas, por isso param para ver o buraco que, segundo eles, parece com uma piscina. Mas a Thamires discordou falando que é muito grande e por isso parecia com o buraco do metro da Sé. Guilherme perguntou se ela já tinha visto metro na Vila Itaim, pois o assunto era a Vila Itaim e não a Sé, que o buraco era por conta das enchentes e então era um piscinão. A educadora chamou a atenção da turma para não perderem o rumo da conversa e não se agredirem com palavras ásperas.

Outras crianças relataram o lixo nas ruas derramado nas calçadas, pois as pessoas colocavam antes ou depois do caminhão de lixo passar e os cachorros rasgavam os sacos de lixo, deixando tudo espalhado na calçada.

Ao final, a educadora pediu para que todos observassem os nomes das ruas por onde passavam e para não se esquecerem de anotar em uma folha, que entregou. Além de observarem coisas novas que ainda não tinham percebido e o que poderia melhorar na Vila Itaim.

Ficando assim a proposta de atividade para o próximo dia.

- Registro de observação Maria Jaqueline junho de 2012

Após esta conversa, juntamente com os educadores, elaboraram um questionário para ser aplicado com moradores do bairro, com as seguintes perguntas:

  • Como era o bairro há 20 anos?
  • Como era a rotina dos moradores?
  • O que melhorou no bairro?

Com o questionário elaborado e data agendada, saíram todos pelo bairro como repórteres, munidos de lápis e papel, rumo às residências dos entrevistados.

b)     Registro dos dados levantados por meio de desenhos

Ao retornarem das entrevistas, divididas em grupos, as crianças registraram na forma de desenho todas as histórias que ouviram, observando as diferenças na paisagem, como era antes e como é hoje. As crianças observaram muitas hortas, criação de galinhas e modos de vida que mais se assemelhavam ao estilo de vida do campo, ainda existentes hoje.

c)     Pesquisa na internet

As entrevistas não foram suficientes para responder e satisfazer a curiosidade das crianças, por isso a educadora solicitou ajuda da equipe do escritório da organização para empréstimo de notebooks e acesso a internet, que foram utilizados para a realização de uma pesquisa documental.

Com o material em mãos foi uma festa, cada um queria mostrar que já estava familiarizado com o mundo da informática mais do que o outro, sendo necessário novamente serem divididos em grupos.

Durante o tempo em que realizavam as pesquisas, encontraram documentários escritos e no formato de vídeos, observando as seguintes questões:

  • Historia do bairro: quando o bairro foi criado?
  • Por que tem esse nome?
  • Como era quando foi criado?

Por fim, ao término da atividade registraram sua pesquisa em seus diários de bordo.

d)     Exploração do território: caminhada e roda de conversa sobre pontos observados.

Para esta etapa a educadora contou com o meu auxilio, já que a caminhada no bairro foi um pouco longa, pois cada um queria mostrar para os outros colegas um ponto interessante.

Como melhorias ocorrentes foram apontadas pelas crianças: o comércio local e a nova estação de trem do bairro. Porém, os mesmos observaram a má conservação da limpeza das ruas e pichações presentes por todo o bairro.

Mas o ponto que mais gerou desconforto foi a visita à quadra da comunidade, que se apresenta, além de muito suja, vitimizada pelo vandalismo.

B. Recreação na Vila Itaim

Após a realização da caminhada pelo bairro ficou um questionamento na mente das educadoras: Existe alguma área para a prática de esporte e lazer na Vila Itaim? Questionaram também as crianças sobre os locais onde elas brincam. As crianças apontaram como locais as quadras das escolas, o CCA e as ruas do bairro.

Para responder a esta pergunta as educadoras saíram em busca de outros locais apropriados para a realização de atividades recreativas. Após muita caminhada encontraram uma pracinha que foi recém-inaugurada no bairro e dispõe de árvores, mesas para jogos de tabuleiros, balanças e escorregadores.

Por fim, foi realizado no espaço encontrado um piquenique com direito a tempo para brincar e conversar sobre a importância da preservação deste espaço.

C. Meu bairro tem História

Com os objetivos de conhecer a diversidade cultural do bairro, respeitar os povos e reconhecer a herança e patrimônio histórico foram realizadas as atividades abaixo:

  • Visitas a casas de moradores para ouvir histórias sobre a infância

Nesta nova visita as crianças foram agraciadas com contações de histórias, experiências vividas na infância dos entrevistados.

  • Empréstimo de objetos típicos encontrados nas casas visitadas.

Durante a roda de conversa, educadora e crianças observaram os objetos apontados pelos proprietários das casas como sendo vindos de determinadas regiões do território nacional, o que os levou a notar que em cada residência existia algum objeto que registrava a herança cultural que aquela família carregava. Em razão disso, foi agendado um novo dia para visitar a residência, com a intenção de pedir os objetos emprestados para compor o arsenal da feira cultural.

  • Criação de vitrines vivas e painéis com os mitos citados nas entrevistas

Com o auxílio da educadora, as crianças pesquisaram as lendas folclóricas que surgiram nas histórias contadas. Escreveram o fruto desta pesquisa e, para ilustrar, se fantasiaram, criando as vitrines vivas.

  • Feira folclórica com a apresentação do resultado alcançado

A feira foi realizada no dia 22 de agosto de 2012. Foram convidados os familiares e membros da comunidade para apreciação dos resultados alcançados.

Aprendizagens

  • A importância de ampliar a rede de parceiros, para juntos alcançarmos melhorias para o bairro (limpeza e manutenção das quadras)
  • Riqueza dos momentos nos quais os atores do território possam atuar e participar da vida do CCA
7.2. Centro para Crianças e Adolescentes Parque Paulistano

Elaine Cristina de Souza

 

A Sociedade de Ensino Profissional e de Assistência Social – SEPAS atualmente mantêm entre seus projetos o CCA Parque Paulistano, conveniado com a prefeitura, no qual atende 300 crianças de 06 a 14 anos e 11 meses com atividades sócio educativas. Sou responsável por acompanhar as atividades pedagógicas, o fortalecimento familiar e o vínculo com o território. O desafio tem sido o de dar uma resposta preventiva a uma realidade de violência e desafetos familiares, transformando esta realidade em bem estar, conduzindo nosso público a ser protagonista da sua própria história.

Projeto Meu bairro, Minha história

Durante a formação elaboramos um projeto de jornal e blog que tem como objetivo geral levar os jovens à reflexão sobre a função social da leitura e escrita. Além disto, tem como objetivos específicos: o fortalecimento das relações do trabalho em grupo; a interação entre educandos, educadores e funcionários; a divulgação do trabalho realizado pela instituição. Entre os conteúdos previamente levantados estão: comportamentos leitores e escritores pertinentes a cada gênero textual; aspectos linguísticos e discursivos da mídia impressa. Pretendíamos produzir um jornal mensal e divulgá-lo no blog. Tempo de duração: 5 meses.

O projeto foi realizado com educandos de 10 a 14 anos em conjunto com as educadoras responsáveis Rosângela e Érika

Desenvolvimento

A. Momento de orientação com as educadoras

No primeiro momento levei a ideia para as educadoras, que se mostraram interessadas pelo projeto. Uma delas comentou: “É uma maneira de trabalhar a leitura e escrita através da prática”. As educadoras e eu conversamos com os educandos sobre a ideia do jornal e blogs, alguns se mostraram empolgados dizendo que seria bacana entrevistar as pessoas.

B. Apresentação da proposta para os educandos / levantamento de conteúdos prévios

Os educandos sugeriram que iniciássemos com um mural e assim foi feito. Para o mural eles pesquisaram sobre: o que é imprensa? Como surgiu? Quais são os meios de comunicação?  Confeccionaram o mural com recortes e pequenas frases, deixando exposto por uma semana para que todos tivessem acesso.

C. Roteiro de perguntas para os moradores

A educadora sugeriu que entrevistassem os moradores para saber o que eles acham do bairro, se houve progresso e quais foram. E juntos elaboraram as perguntas:

  • Qual o seu nome?
  • Qual a sua idade?
  • Quanto tempo mora no bairro?
  • O que você acha do bairro?
  • Houve progressos?
  • Quais são as problemáticas?

D. Saída a campo

Na semana seguinte, nos dividimos em pequenos grupos de três pessoas para a ida a campo.

A educanda Gabriela perguntou: qual a melhor maneira de entrevistar as pessoas? E o educando Guilherme respondeu: “Assim: boa tarde, eu sou fulano do CCA Parque Paulistano e gostaria de fazer algumas perguntas sobre o bairro, você pode me atender? E se a pessoa falar sim, a gente faz as perguntas”. Todos concordaram e saímos a campo.

Enquanto eles abordavam as pessoas, as educadoras e eu observávamos e percebemos que ficaram um pouco nervosos, no início mexiam as mãos e os pés, mas logo começaram a se sentir à vontade, trataram as pessoas com muita educação, pedindo autorização para entrevistar, cumprimentado com boa tarde e agradecendo ao final das entrevistas, chegando a receber elogios dos moradores.

Os alunos ficaram encantados ao descobrir uma senhora que mora no bairro há mais de 60 anos e queriam conversar mais com ela, porém o nosso tempo havia acabado, sugeriram então que agendássemos um dia para recebermos a mesma no nosso espaço.

E. Debate das descobertas

No dia seguinte realizamos um debate, onde demonstraram estar entusiasmados, queriam falar ao mesmo tempo. Questionaram por que alguns moradores citavam muitos progressos e outros não, pois uns citaram a importância do comércio, dos bancos, do AMA das escolas das CEIs que surgiram nos últimos anos, e outros diziam que quase nada mudou, enfatizando o aumento da violência do tráfico de drogas. A unanimidade entre os moradores foi a falta de lazer.

Avaliação

Os educandos avaliaram este momento como muito interessante, pois tiveram a oportunidade de interagir com os moradores, de fazer descobertas e de vencer a vergonha.

Observamos que durante este processo houve uma integração entre o grupo de educandos e entre eles e as educadoras. Outro aspecto observável foram as dificuldades de escrita, mas mesmo assim os jovens não deixaram de responder o questionário. Tivemos dificuldades de entender algumas palavras, mas como estava recente diziam e os colegas alfabetizados transcreviam.

Os desafios e as aprendizagens

A partir deste momento tivemos muitos imprevistos e dificuldades para cumprir os prazos das atividades já planejadas anteriormente, pois trabalhamos com temas geradores, onde todo mês desenvolvemos um tema como, por exemplo, Mês de Agosto: Figura paterna e tivemos que preparar as lembranças (oficina de artesanato), organizar o evento da partida de futebol entre pais/Cuidador x filhos. Trabalhamos também com cronograma, cada turma tem o seu dia de lazer (esporte), filmes, oficinas e atividades em sala. No entanto, quando iniciamos o projeto do jornal e blog não nos atentamos ao cronograma e as atividades anteriormente propostas.

Em uma conversa com os educandos eles sugeriram que realizássemos o projeto do jornal e blog no próximo ano, já incluindo no cronograma.

Na reunião pedagógica as educadoras e eu conversamos sobre o projeto e percebemos a importância de fazer um planejamento, pensar nas atividades já desenvolvidas.

Durante todo este processo percebi a importância de refletir sobre a nossa prática, não atribuindo juízo de valores, qualificando nossa prática e atribuindo sentido ao nosso trabalho.

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