8. União Social Brasil Gigante

 8.1. Projeto de Profissionalização
 

Marluce de Souza Pereira

Contexto

O Serviço de Medida Socioeducativa em meio aberto “Abraço Amigo” atende adolescentes e jovens em cumprimento de Medida Socioeducativa de Liberdade Assistida (LA) e Prestação de Serviço a Comunidade (PSC).

Atuo como educadora nesta organização e durante certo período observei e registrei algumas atividades com o objetivo de refletir sobre minha prática cotidiana junto aos jovens e familiares atendidos e de destacar aprendizagens que podem ser úteis para outros profissionais com atuação similar à minha.

Profissionalização

Escolhi como objeto do processo de reflexão e registro uma sequência didática do projeto de PROFISSIONALIZAÇÃO, que foi desenvolvido com adolescentes/jovens de 16 a 21 anos e seus familiares, no qual atuei como educadora.

O objetivo do projeto foi conhecer os adolescentes, suas aspirações e prepará-los para o mercado de trabalho, ampliando a proposta para os familiares que estão fora em busca de uma nova recolocação profissional.

A primeira atividade do processo de sistematização foi planejar este trabalho, descrevendo assim a prática que seria sistematizada. A sequência didática foi planejada para acontecer em três etapas, cada uma delas representando um encontro com os jovens e familiares:

  1. Apresentação do CEAT
  2. Palestra com a equipe da organização
  3. Cadastro de currículos pela internet / balcão de dúvidas

Essas três etapas foram por mim registradas e incluo aqui os registros e reflexões que esta prática me proporcionou.

Desenvolvimento

Primeira etapa

A primeira etapa realizada foi uma oficina com a equipe do CEAT (Centro de Apoio ao Trabalhador). Esta etapa tinha como objetivo esclarecer dúvidas sobre o tema “Mercado de Trabalho”, confeccionar carteira de trabalho, proceder com o preenchimento de ficha de emprego e encaminhamentos para vagas de emprego.

A equipe do CEAT apresentou, numa fala sucinta, o trabalho que desenvolvem, ressaltando a possibilidade dos jovens procurarem o serviço para encaminhamento a empresas e oferecendo orientações em relação aos preparos para uma entrevista de emprego. Notei que os participantes não manifestaram dúvidas nem comentários a respeito, o que considerei um indicativo de que os jovens não estavam preparados para receber tais orientações e/ou poderiam não estar interessados no assunto.

Após a apresentação inicial, a equipe do CEAT passou à atividade de preenchimento de fichas de cadastro. Neste momento, percebi que o grupo ficou meio dividido, alguns jovens foram pegar a ficha e outros disseram que não queriam preencher o cadastro. Perguntei ao grupo quem deles estavam procurando emprego, a maioria respondeu que sim, então eu reforcei o convite para o preenchimento da ficha. Imaginei, então, que alguns adolescentes estavam com dificuldade de preencher a ficha e por isso não manifestaram interesse em fazer o cadastro. Em acordo com os técnicos, nos dividimos para ajudar ou até mesmo preencher a ficha para aqueles que disseram que não queriam. Quando nos oferecemos para preencher a ficha todos aceitaram fazer o cadastro. Um dos adolescentes se levantou e foi tirar a Carteira de Trabalho. No preenchimento das fichas percebi que havia informações que dificultavam o entendimento, mas nenhuma pessoa se manifestou a respeito. Achei prudente dividir as dúvidas com os demais e perguntei à técnica do CEAT como deveria preencher aquelas questões. Assim, fomos elucidando as minhas dúvidas e outros técnicos e participantes apresentaram também suas dúvidas à técnica.

Após o preenchimento das fichas, foram apresentadas as vagas no perfil dos participantes e os mesmos foram orientados a procurar o CEAT na segunda-feira próxima para retirar carta de encaminhamento. Neste momento o grupo fez anotações e tirou dúvidas sobre as vagas apresentadas.

Por fim, o técnico Sergio apresentou as vagas de cursos nos parceiros da região de Itaquera. Fechamos o grupo com um café onde algumas pessoas continuaram tirando duvidas com os técnicos do MSE e os profissionais do CEAT.

Segunda etapa

A segunda etapa foi realizada com uma palestra com os técnicos da própria organização abordando os seguintes temas: entrevista de emprego, elaboração de currículo, caso de sucesso (uma experiência verídica de um jovem que conseguiu seu primeiro emprego e hoje está em uma posição importante dentro da empresa), indicação de locais para vagas de emprego e indicação de cursos profissionalizantes e de qualificação profissional.

Neste encontro, que foi planejado para ser uma continuação do encontro anterior, estavam presentes 25 pessoas, mas não incluía ninguém que estivesse no encontro anterior. Assim, o técnico responsável pela atividade falou sobre o encontro do mês anterior e continuou apresentando a proposta de trabalho. Os participantes não fizeram nenhuma pergunta neste momento, alguns adolescentes saíram do grupo e foram para a recepção da casa. Destes, alguns voltaram e outros não. Tais acontecimentos me levaram a considerar que a participação dos jovens estava aquém das nossas expectativas.

Em seguida, outro técnico apresentou aos participantes dicas de como se portar em uma entrevista de emprego. Em nenhum momento ouve a participação dos presentes, não fizeram nenhum tipo de pergunta.

No passo seguinte, outro técnico falou sobre currículo e novamente não instigou a participação ou perguntas dos participantes, que ficaram somente como ouvintes, não oferecendo nenhum feedback verbalmente.

Na sequência, outro técnico falou sobre um caso de sucesso, o caso de um jovem que iniciou em uma empresa em um cargo baixo e foi subindo de cargos na empresa até se tornar gerente. Após as apresentações, demos uma pausa para o café e todos participaram ativamente. Após o café, a maior parte dos adolescentes já havia saído da sala, não ocorreu nenhuma aproximação entre os participantes e novamente só ficaram com ouvintes.

No decorrer das apresentações feitas neste encontro, fui percebendo que a forma escolhida de apresentação dos conteúdos não favorecia a aproximação dos participantes. Notei que os jovens não estavam participando da forma como imaginávamos que fariam, mas observei que a abordagem que estávamos utilizando não despertou o interesse deles.

Para continuar o trabalho apresentei os locais onde os participantes poderiam ir à procura de emprego. Fui perguntado aos participantes quem nunca tinha trabalhado e depois falei sobre o primeiro emprego e como sair em busca. O público estava cada vez menor.

Para finalizar, outro técnico apresentou as vagas de cursos profissionalizantes e de qualificação profissional. Em nenhum momento os participantes anotaram endereços ou informações passadas. Propusemos aos participantes que, caso tivessem interesse em algum curso ou encaminhamentos de vagas de emprego, procurassem os técnicos na recepção, que iríamos orientá-los individualmente, pois tínhamos recebido o CEAT uma lista das vagas disponíveis. Não fomos procurados por nenhum participante.

Terceira etapa (prevista)

Na terceira etapa será disponibilizado aos adolescentes e jovens um balcão de informações, no qual eles poderão sanar dúvidas sobre qualquer assunto pertinente ao mercado de trabalho, além de disponibilizar um computador com internet para que possam fazer cadastros em empresas, encaminhar currículos e imprimi-los. Sempre com orientação dos técnicos se necessário.

Aprendizagens

Durante este trabalho sugiram muitas inquietações sobre minha atuação, a atuação de meus colegas e do Serviço “Abraço Amigo”. Percebi o quanto estávamos trabalhando orientados por nossas expectativas e não pelas dos adolescentes/jovens que atendemos. Questionei-me sobre o quanto ditamos o que é importante para o outro, o que é politicamente correto, sem conhecer profundamente o que de fato o outro quer, precisa e a realidade em que está inserido.

Como nosso publico é rotativo certamente trabalharemos novamente esta questão da empregabilidade em outro momento, estou certa de que nas próximas atividades pensaremos em outras estratégias para atingir os objetivos esperados. Penso em um planejamento diferente, mas com a ressalva de que não será o mesmo público, mas se fosse um grupo neste mesmo formato eu seguiria as seguintes etapas de desenvolvimento:

  1. Começaria com um diagnóstico do grupo, para conhecer os jovens
  2. Levantaria suas expectativas e sonhos seus currículos
  3. Levaria os jovens até os serviços públicos de apoio ao ingresso no mercado de trabalho (Poupatempo, CEAT, CAT)
  4. Organizaria plantões de dúvidas com computadores disponíveis para pesquisas, cadastramentos e afins com a orientação de um técnico.
8.2. Projeto de atendimento em espaços diferenciados

Renata Patrícia Alves Santana

Como foco do processo de sistematização das Oficinas CASA7, escolhemos uma sequência didática do projeto de atendimentos em espaços diferenciados, que foi desenvolvido com adolescentes e jovem de 13 a 21 anos e no qual atuei como Técnica.

Contexto

O Serviço de Medida Socioeducativa em Meio Aberto “MSE- MA -Abraço Amigo” faz parte da ONG União Social Brasil Gigante. Realizamos atendimento para 120 adolescentes e jovens entre 13 e 21 anos, encaminhados pelo poder judiciário por terem cometido ato infracional. Eles cumprem medidas sócio-educativas de Liberdade Assistida (LA) e/ou Prestação de Serviço à Comunidade (PSC), por prazo determinado pelo poder judiciário.  O MSE – Abraço Amigo está localizado na Av. Maria Luiza Americano, 409 – Pq Do Carmo – Itaquera – SP.

Os adolescentes/jovens atendidos residem próximo ao serviço nos bairros de Itaquera, Parque Do Carmo, Vila Carmosina, Cidade Líder, Parque Savoy City. São adolescentes que possuem sonhos, desejos, medos e, principalmente, disposição e energia, alguns vivem um vazio de expectativas e desesperança, bem como falta de vontade. Apresentam conflitos familiares com seus pais e a grande maioria vive sob a responsabilidade da mãe.

Eles vivem em um ambiente de alta vulnerabilidade social, no qual o comportamento “natural” é uso de drogas ou o envolvimento com o tráfico de drogas. A grande maioria possui baixa escolarização, não tem acesso à cultura e lazer de qualidade.

O Serviço funciona de segunda à sexta-feira, das 8h às 17h00 e os adolescentes/jovens em LA/PSC são atendidos uma vez por semana ou a cada 15 dias. Esses atendimentos são chamados de individuais e são realizados por um profissional técnico da equipe multidisciplinar da qual eu faço parte como Psicóloga. A equipe possui oito técnicos formados em Serviço Social, Pedagogia, Ciências Sociais e Psicologia.

Este projeto surgiu a partir de uma reflexão da equipe técnica de ampliar o atendimento individual para outros espaços dentro da instituição. Baseados nos princípios da pedagogia de Frenet que se utilizava de aulas passeios para motivar e ensinar seus alunos. Valemos-nos deste mesmo método, com o objetivo de realizar atendimento de medida sócio-educativa que promovesse autonomia e sentimento de pertença em espaços diferenciados fora da instituição como, por exemplo, em espaços culturais, de lazer e esporte. Assim, buscamos trabalhar também a proposta educativa do Professor Antonio Carlos Gomes da Costa, que trata da importância de estimular as quatro dimensões do ser humano (bio–física/afetiva/racional/transcendental) e gerar, assim, novos aprendizados, facilitar o fortalecimento de vínculos entre o técnico e adolescente em ambientes que rompem com qualquer possibilidade de opressão e dominação.

Os atendimentos acontecem, em sua grande maioria, dentro do serviço MSE Abraço Amigo, em salas que comportam no máximo três pessoas. A nosso ver, os atendimentos a adolescentes e jovens infratores em cumprimento de medida socioeducativa em salas fechadas, embora, em alguns momentos, sejam importantes, reproduzem em demasia o cotidiano de dominação ao qual estão inseridos historicamente. Isso, devido à relação de poder hierárquico que se estabelece no espaço das salas de atendimento individual, no qual a mesa que separa o adolescente e o técnico acaba se tornando uma fronteira, impossibilitando o diálogo. O técnico por muitas vezes é visto, pelo adolescente, como um juiz e se sente intimidado em falar o que realmente pensa e vivencia.

Descrição da prática

A primeira tarefa foi planejar este trabalho, descrevendo assim a prática que seria sistematizada (tabela anexa). A sequência didática foi planejada para acontecer em três etapas, cada uma delas representando um encontro com os jovens:

  1. Visita à biblioteca Municipal Milton Santos
  2. Sessão de Cinema sócio-educativo
  3. Passeio no SESC Itaquera

Registros

1. Visita a biblioteca Municipal Milton Santos

A visita, que teve por objetivo promover o acesso a cultura e a leitura, contou com a presença de 6 adolescentes. Os adolescentes conheceram a biblioteca, leram livros e trocaram experiências. Alguns participantes relataram que não conheciam a biblioteca e que gostaram de conhecê-la.

2. Sessão de Cinema sócio-educativo

Na segunda visita realizada, tivemos a participação de 25 pessoas entre os adolescentes atendidos, seus pais e amigos. O Filme escolhido teve por objetivo abordar o tema da drogadição de um adolescente e sua relação com sua família. O filme iniciou e pude observar que os adolescentes estavam atentos ao que se passava e de acordo com o que era exibido apresentavam algumas reações, alguns sorriam outros não, alguns conversavam entre si. Ao final do filme, entregamos o vale transporte aos adolescentes e ouvimos seus comentários e sugestões sobre os filmes que gostariam de ver nas próximas sessões.

3. Passeio no SESC Itaquera

Na terceira visita, realizada no SESC –Itaquera, participaram 09 adolescentes e montamos um time de futebol. O time jogou duas vezes por 30 minutos em cada partida ganhou o primeiro jogo de 3 a 2 e o segundo jogo perdeu por 2 a 1.  Ao final do jogo, realizamos uma caminhada pelo SESC até o estacionamento onde foi entregue o vale transporte de cada adolescente, para que retornassem as suas casas e o lanche. Em seguida, realizamos o momento de avaliação do evento e em uma palavra os adolescentes disseram o que acharam do dia alguns participantes disseram “DIVERSÃO”, “LAZER”, “LEGAL”, “BOM”, “COMPETIÇÃO”, “ALEGRIA”, “QUERO MAIS”, “VAMOS VOLTAR QUANDO”, “MUITO BOM”, “LEGAL”. Em seguida nos despedimos dos adolescentes.

Reflexões e aprendizagens

Realizei os registros de cada atividade em espaços diferenciados e eles me fizeram refletir sobre a minha prática cotidiana junto aos adolescentes/jovens como os quais atuo. Assim, procuro aqui destacar aprendizagens que me foram úteis e que podem ser úteis para outros educadores com atuação similar.

A realização dos atendimentos em espaços diferenciados cumpriu com seu objetivo inicial, pois os adolescentes conheceram uma biblioteca, uma sala de cinema e praticaram esportes e nos demais atendimentos sempre nos cobravam quando poderão ir de novo conosco a esses locais. Também favoreceu o vínculo entre técnico e adolescente, aproximando não só os técnicos de seus, como também dos demais adolescentes.

A despeito dos objetivos cumpridos, analisando as atividades acredito que poderíamos ter feito de outra forma: em primeiro lugar, devíamos ter ouvido dos adolescentes quais locais no bairro e redondezas eles não conheciam e após mapear esses locais, sistematizar, incluindo essas visitas mensalmente no planejamento pedagógico, diferente do que ocorreu nessas atividades que aconteciam quando havia tempo livre no cronograma mensal. As visitas ocorreram apenas em alguns meses, pois não eram valorizadas na organização como importantes, mais sim como uma atividade de lazer apenas. Acredito que sentimos dificuldade de avaliar o trabalho realizado, pois não elaboramos ferramentas ou indicadores de avaliação, de modo que atividade se esgotou na própria atividade.

Durante os nossos atendimentos individuais em espaços diferenciados foi possível perceber que os adolescentes/jovens se expressaram de forma mais livre e dialogaram com facilidade, não só sobre si mesmos, como também, sobre outros assuntos. Isto, por sua vez, ampliou o olhar do técnico para com o seu adolescente e fortaleceu o vínculo entre ambos. Além disso, possibilitou uma nova interação social entre o adolescente/jovem e a equipe técnica, de modo diferente do que acontece no modelo de atendimento individual (sala de atendimento fechada), mencionado anteriormente. Essa mudança promovida pelos atendimentos em espaços diferenciados foi muito gratificante, pois impactou também no fortalecimento do relacionamento entre técnico e adolescente na própria sala convencional de atendimento individual.

Durante este trabalho me surgiram questões importantes sobre a participação e adesão dos jovens e sua relação com a qualidade da interação educador-educando. Questionei-me se poderíamos ter feito algo melhor que promovesse a adesão de um numero maior de adolescentes, uma vez que atendemos 140 adolescentes aproximadamente. Ao refletir sobre os caminhos que escolhemos para atingir os objetivos pretendidos, penso que há algumas coisas que faria diferente num novo processo deste tipo. Planejaria as etapas de desenvolvimento da seguinte forma:

  1. Ouviria os adolescentes sobre quais locais no bairro eles não conheciam e quais eles frequentam, a fim de fazer um diagnóstico. Criando em grupo um mapa dos espaços culturais e de lazer e esporte que conhecem em seu bairro.
  2. Levantaria suas expectativas e interesses através de dinâmicas de grupo
  3. Realizaria com os adolescentes o planejamento de cada visita e pesquisa previa sobre o local e sua historia.
  4. Utilizaria um Diário de Bordo, por meio de caderno ou blog, para que cada adolescente pudesse escrever o que achou da visita pedagógica.
  5. Organizaria ferramentas para avaliar cada visita a fim de melhorar o planejamento.
3 Responses to 8. União Social Brasil Gigante
  1. gostaria de saber o novo endereço do brasil gigante que se localizava na av: maria luisa americano.Desde já agradeço.

    ATT;Delanice

    • Boa tarde, Delanice!

      Temos o telefone da unidade MSE/MA Abraço Amigo.
      Tel.: (11) 2056-1655 / 3895-8803

      Abraços,
      Equipe CASA7

    • da parabens a calors e selma por suas conquistas principalmente porque eu sei da batalha que voe7es travam dia a dia com muito trabalho,dignidade,respeito e simplisidade contunue assim e que voe7es conquexte muito mais e o que eu desejo de corae7ao.beijo a todos.


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